desejoso

desejos são perigosos,
derrubam muros,
estabelecem pontes,
geram filhos,
assassinam,
criam jardins,
roubam beijos.
incontroláveis,
chucros.
necessitoso em domá-los,
vivo de conta.
acordo. me ocupo. durmo.

tão incerto

frágil como todas as crianças,
seu choro interrompe o curso das estrelas,
enquanto o perfume da dama da noite inebria.
tudo é paz,  é incerteza.

terá comida? agasalho? escola?
superará as agruras do inverno próximo?
são as poucas de inúmeras perguntas,
que a mãe engana no embalar o seu neném.

outras virão, é certeza.
destino severo, extrema pobreza.

e na espera do novo dia,
ouve-se, bem longe, o balido da ovelhas
e o grito rouco do pastor da noite,
parecem anjos, arautos de boa notícia.

feito de vaga-lumes, cocho e palha,
belo, mas sem aparência ou neve,
aquele presépio, o único e original,
anuncia algo novo, inaudito.

e assim deus habitou o mundo.

é de paz que eu vou falar

no meio de tantas incertezas,
além das traições e desesperos,
meu coração sonha aprender de novo.

aprender a confiar nas pessoas,
aprender a brincar por bincar,
aprender a sonhar que tudo é possível.

meu deus,
és bom e infinitamente amoroso,
lento em punir, pronto a perdoar,
ensinai-me o segredo de ser homem.

não mais do que isto te peço,
que eu saiba ser divino, amando
e saiba ser humano, acolhendo.

que eu derrame lágrimas,encantado,
diante das pequenas coisas:
o brilho das estrelas,
o perfume das flores,
o barulho do mar.

que eu não me torne insensível
ao abandono de homens e mulheres
largados a própria sorte
embaixo de viadutos
e ao longo das avenidas
desta grande metrópole.

que eu não me conforme com o inconformável,
que a cruel omissão de socorro,
a covardia e o falso interesse,
não recebam os louros da vitória final.
dai-me sempre o poder transformador da ira,
de indgnar-me diante da injustiça. Amém.

sermão de domingo

Perguntam-me: és um religioso?
Respondo: sou.
Por que teus textos falam pouco de Deus?
Não creio que Deus esteja ausente nos meus escritos.
Talvez de modo diferente, mas está muito presente.
Tudo que é humano, é divino.
Prefiro falar de minhas experiências de homem, varão,
nas minhas alegrias e dores,
virtudes e vícios,covardias e heroísmos,
saúde e doenças,abstinências e prazeres.
Bruto e sensível.
Sou assim, contraditório. Sempre.
Na contra-mão da vida, sinto a transcedência.
Pedem-me: seja mais recatado.
Não tenho mais idade para isso!
Indagam: amas alguém?
Pergunto, eu: é possível ser amado, sem amar?
Homem ou mulher?
Importa? Homo ou hétero não é a questão.
Pra mim, é: somos capazes de nos humanizar?
Sofrer com os que sofrem,
emocionarmo-nos com uma rosa ou a chuva,
sentir uma criança, construir jardins,
fazer discursos, apreciar boa comida.
Lutar com os vulneráveis da sociedade.
Chorar em casamento ou enterro.
Ou mesmo num filme bobo.
Ter dor de barriga diante de pessoas dormindo na rua Araújo.
E correr para o metrô, tentando esquecer.
Já disse, sou covarde. E também medroso.
Há gays e não gays bloqueados na sua humanidade.
Católico, metodista, presbiteriano, mulçumano, ateu...
Experimento Deus na tradição religiosa católica,
é um presente que recebi dos meus antepassados.
Está no meu dna.
Mas não acredito que é o único jeito de amar a Deus.
Nem o mais complento; nem é o mais deficitário.
Amo a missa, Nossa Senhora e confesso-me.
Rezo os salmos quase todos os dias.
Jesus não foi católico, foi judeu na religião.
O importante é amá-lo de todo o coração,
com toda a mente, com todo o meu/nosso ser.
Tenho fé, não certezas.
Tenho esperança, não verdades.
Sou isto e não sou ao mesmo tempo.
A inconstância também me explica,
mas não me define.
O que Deus quer de mim?
Não sei.
No escuro, procuro descobrir.
Tenho receio em partilhar isto,
mas partilho.

tristeza, não quero poetizar

quando amamos alguém,
no infinito de nosso ser adentro,
no mais profundo do sentir,
e esta pessoa parte,
arrancada de nós
ou se despedindo pra sempre,
isto dói mortalmente.
acostumamo-nos, mas sem esquecer.
o tempo ameniza, eu sei,
mas é só isso: ameniza.
o tempo é incapaz na cura
da saudade de um grande amor.
adquirimos costume da ausência.
só isso, nada mais.
e o mais bonito é que,
ainda que sofridos,
continuamos a nos mover,
continuamos a lutar,
continuamos a esperar cada amanhecer.
e não desistimos dos sonhos.
talvez, agora, por nós próprios
ou, quiçá, por causa de quem se foi
ou - quem sabe? - por ambas razões.

perene

chão turricado, depositei a pedra.
lavrei onze letras, para sempre.
admirando formas, penetrei reentrâncias,
deixei-me envolver em lembranças.

cristais preciosos esvairam, janela da alma,
amolecendo o solo, tornando-o prenhe.
sorri, memórias, alegrias partilhadas.
derramando sonhos tirados, promessas ainda.

vieram sóis, luas pratearam mares.
voltei ao altar sacrossanto , monumenta.
tomei-te então botão, rosa amarela.
imortalizei entre páginas, nosso diário.

bosque de árvores frutíferas

deus a criou mulher,
fez-lhe coragem, vencer batalhas.
guerreira da paz, meiga nas guerras,
desafios, carinho, entrega. não temes.

sofrer sim, retroceder jamais.
em teu nome, destino ou promessa,
traçad0 no berço, história construída,
desprezas o singular, és muitas.

não suficiente ser árvore,
és coletivo, bosque,
lugar de amantes, prazer no fruto.
mais que frutífera, és cheia de vida.

marli de santo aníbal,
marli de santa madalena,
marli do união, tantas numa só,
encanto em nome, tradição helênica.

separação

nem partistes e já sinto a saudade da ausência,
nem fostes e já sinto a distância que separa.
curitiba, ontem tão perto,
hoje parece-me além do oceano.
é verdade que para quem ama não existe distância.
amar-te é tudo que posso permitir-me.
amo-te. tu sabes? sei que sim.
e a pergunta que não tenho coragem de fazer:
tu ainda me amas?

fulminante

não foi preciso toques,
nem mesmo palavras,
bastou fitar de olhos,
meu castelo de certezas ruiu.

sei, não mais me engano,
ainda te amo
e, ainda que tenhas tantos,
serei eterno teu.

triste? não, destino.
mesmo inexistente em ti,
mesmo que digam contrário,
vivo por teu viver.

rev(s)olução

"é para sempre,
eu te apaguei da minha vida".
e assim passaram os dias
que se fizeram anos.

eis teu vulto moreno,
teus olhos negros,
teus cabelos revoltos,
teu cheiro almíscar amadeirado.

bastou apenas um instante,
menos que um átimo,
para invadir meu coração.
silenciado, serei eternamente teu.

inteiramente grávido

amanheceu.
campeei e lancei-me a semear.
escolhi com zelo, pérolas únicas,
apuradas e prenhes de promissão.

atirei-as ao léo, com cuidado,
terra ávida aspirando sêmenes.
procurei ser certeiro,
preciso é.

algumas rebuscadas,
outras simples,
a maioria comuns.
não poupei esforços, nem sementes.

num jogo travesso e generoso,
com delicadeza e conciso
em constante brincar,
divertimento.

passei o dia em semeaduras,
entre versos e prosas.
canteiros sem fins,
dádiva em palavrar.

anoiteceu,
recolhi meu bornal.
finalmente nos teus braços
fui fecundado por teu silêncio.

quimera

quanto mais anoiteço,
mais sinto medo do medo.
quanto mais enturvo,
mais ignoro a razão.
certezas, mais na infância.
mais fácil idolatrar-se, vencedor,
mais penoso amar-se, perdedor.
ah se a vida fosse menos palmas...

iago e marcus

montanha.
planície.
um suspirando o além nuvens,
outro aspirando a ardente brisa,
um apropria-se do seu fardo,
outro recosta a sua bagagem,
escalada.
chão.
pedra após pedra, fragilidade,
pedra com pedra, circundado,
ganchos, corda, vento.
gravetos, carvão, fogo.
ritual antigo, ascenção,
rito ancestral, purificação,
vertigem, intuir-se além.
equilíbrio, sentir-se agora.
intante místico, vencedor.
momento mágico, confortador.
êxtase, mistério, temor,
sossego, silêncio, louvor,
um, inebriado de altura, vereda o chão,
outro, sóbrio de horizonte, galga o céu,
ambos no planear a si.

marcus

planície.
aspirando a ardente brisa,
recosta a sua bagagem,
chão.
pedra com pedra, circundado,
gravetos, carvão, fogo.
rito ancestral, purificação,
equilíbrio, sentir-se agora.
momento mágico, confortador.
sossego, silêncio, louvor,
sóbrio de horizonte, galga o céu,
no planear a si.

iago

montanha.
suspirando o além nuvens,
apropria-se do seu fardo,
escalada.
pedra após pedra, fragilidade,
ganchos, corda, vento.
ritual antigo, ascenção,
vertigem, intuir-se além.
intante místico, vencedor.
êxtase, mistério, temor,
inebriado de altura, vereda o chão,
no planear a si.

marcus e iago

montanha, planície.
um suspirando a ardente brisa,
outro aspirando o além nuvens,
um apropria-se da sua bagagem,
outro recosta o seu fardo ,
chão, escalada.
circundado, pedra após pedra,
fragilidade, pedra com pedra,
ganchos, carvão, vento.
gravetos, corda, fogo.
purificação, ritual antigo,
ascenção, rito ancestral,
intuir-se além, equilíbrio.
sentir-se agora, vertigem.
momento mágico, vencedor.
intante místico, confortador.
sossego,
mistério, louvor,
êxtase, silêncio, temor,
um, sóbrio de altura, vereda o céu,
outro, inebriado de horizonte, galga o chão,
no planear a ambos .

nada de novo

"... é na fraqueza que a força se perfaz.
Por isso, me é suficiente a tua gratuidade "
(São Paulo)

jornada reescrita

1. inferno
Era noite.
Pedro, sentado, naquele bar,
mais uma vez levanta o copo.
Nele vê refletida a imagem de Maria.
Pele macia, morena.
Olhar trigueiro e lábios carmesim.
Curvas suaves, infinitas.
Um arrepio lhe corta a alma.
Inverno.
Está só.
Ele, o Pedro!

2. céu
Luz, muita luz.
Primavera.
Manuel ama Maria.
Maria ama Manuel.
Tão simples, assim é o amor.
Tão intrigante assim, só a vida.
Que bom!
Esqueceu-se de Pedro.
Ela se sente plenamente Maria.

3. mar
Uma brisa ardente toca o seu rosto
e esvoaça, suave, seus cabelos.
Nos seus olhos, o mar verde esmeralda.
Ondas furiosas esculpem,
em constante eterno, rochas.
Gaivotas deslizam, majestosas, infinito.
Maria toca, com carinho, a sinuosa curva.
Uma onda serena de satisfação e prazer
faz tremer a alma.
Sorri, encanto. Está prenhe!
Fruto do amor, gerado no amor.
Verde e azul, mar e céu se confundem.
Calor e liberdade se abraçam.
Tempo bom.
Início de verão.

4. terra
Gabriel repousa em seus braços.
Anúncio e mensagem, teofania.
É outono.
Suavemente, ela o aconchega e embala;
de seus lábios brotam antigas canções.
Calma e acalma.
Plenitude.
Ah, aquela noite de inverno, primeira de muitas.
Lençóis manchados, revoltos.
Suor, sêmen, semente, amor e paixão.
Estremece.
Adormece tranquilo em seu regaço,
o bendito fruto de Maria.

5. exílio sem fim
Maria, (sua puta)
Por quê?
Eu bem que devia ter ouvido os conselhos a seu respeito: “Olha de onde ela vem. Ela não tem classe. É bonita sim, mas não vale nada. Tens tanta grana, por que vais te amarrar a esta mulher? Case-se com uma mulher da tua classe social. Fode ela, depois larga" e outras coisas mais. Mas eu, perdidamente apaixonado, não dei a mínima às advertências. Ao invés, resolvi arriscar tudo em você. Deixei-me envolver. Você era tão linda. Parecia tão inocente.
Então, eu dei o que lhe podia dar de melhor: casa, riquezas, um sobrenome, amigos importantes. Fui o primeiro homem na sua vida. Ensinei a você a arte de amar. É você aprendeu bem depressa, né? Aliás, foi esta sua tendência à safadeza que começou a me incomodar.
Onde você anda?
Graças a mim, você pode conhecer um mundo novo. Classe, cultura, viagens... Seu mundo foi ampliado para além do Tietê.
Lembra aquela viagem que fizemos à Europa? Você queria conhecer ‘Bagnoreggio’, só porque foi o lugar onde começou a novela Esperança. Coisa de mulher, mas eu levei você lá. Eu cheio de orgulho, lhe mostrei Veneza, Florença, Roma e Nápoles. Muitos lhe admiravam na sua beleza tropical. Fiz até algumas cenas de ciúmes, lembra? Depois fomos a Paris. Não sei porque você não gostou de lá. Achou que a cidade era muito cinzenta. Gente muito fria. Como você se divertiu em Santiago de Compostella, Porto e Lisboa. Fomos a tantos lugares... Bem diferentes da Vila dos Remédios.
Creio que foi nestas andanças que você iniciou o me enganar. Só não ia prá cama com outro porque eu marcava cerrado. Eu sei. Você não me traia com o corpo, mas com certeza era infiel nos pensamentos. Será que você era sincera quando fazíamos amor? Nos útimos tempos andava tão fria, distante... Deve ser porque tinha outra pessoa na mente. Não, não pode ser. Eu era o melhor que você poderia ter. Ótimo amante, melhor que qualquer um.
Onde eu andei?
Tá certo. Eu era um pouco ciumento e, algumas vezes, exagerei e não pude controlar minhas reações. Mas era porque eu gostava muito, mas muito mesmo, de você. Pode não acreditar, mas eu gostava mesmo! Como poderia então deixar você livre e solta?

Eu tinha os compromissos sociais. Era alguém de muito trabalho. Você sabe, um homem como eu é sempre muito assediado. Por mulheres lindas e interessantes. Elas eram bem fáceis. Um macho não pode dar moleza. Mas o meu coração sempre foi seu. Pode ter certeza disso. Eu não queria perder você por nada neste mundo.
Você era muito bonita, marcava presença. Muitos homens queriam você. Pensa que eu não sei? Você era uma feiticeira, capaz de seduzir com o olhar. Enlouquecia tantos com sua sensualidade. E eu me sentia orgulhoso e poderoso por você ser minha.

Por isso, em alguns momentos, fui violento. Peço-lhe perdão, mas eu não podia controlar este sentimento. Sei que uma ou duas vezes exagerei. Era amor, pode crer. Sim, era amor. Eu não lhe queria fazer mal. É por isso que, arrependido, reparei meus acessos de raiva. O Chagas sempre lhe cuidou bem, nestes momentos. Ele é um médico muito competente, discreto e amigo. Curou as feridas, não deixou marcas.
Onde você está?

Sabe Maria, não imagina você o vazio que senti quando voltei do Rio de Janeiro e não lhe encontrei em minha casa. Recordo bem. Um dia frio de fim de abril. Anúncio de um inverno rigoso, previam os meterologistas. Pensei que estaria me esperando, pronta para me aquecer. Enganei-me, o quarto estava vazio.
Quando a Vitória me disse que você tinha partido, eu não acreditei. Só podia ser um mal entendido. Procurei suas coisas: roupas, jóias e perfumes. Tudo estava lá, no lugar de sempre. Até mesmo as nossas fotografias. Imaginei, mesmo proibida, teria ido passar um tempo em sua casa. Mas tudo bem, estava disposto a lhe perdoar. Esperei dias e dias por um sinal seu e nada. Fui até na vila! Foi então que fiquei sabendo que seus pais já estavam mortos. Você? Ninguém sabia.
Vou lhe confessar. Desesperado, coloquei uma pessoa para descobrir o seu paradeiro. Mas... Nenhuma pista. Nada. Você está viva? Queria tanto receber notícias suas. Não sei. Um simples telefonema, um bilhete, um recado apenas. Sei lá.
Onde eu estou?
Não consego mais dormir direito. Perdi o interesse pelos amigos, pelas festas e até mesmo pelo trabalho. E você sabe o quanto estas coisas eram tão importantes para mim. A princípio, comecei a ficar mais em casa. Meus parentes e amigos estranharam, demonstraram preocupação. Falaram que isto iria passar, que já estava previsto. Falaram até da Laura e outras coisas mais. Mas isto não me deu sossego, parece até que ficou mais difícil levar adiante a vida. O Chagas, sempre ele, tão prestativo, me receitou uns remédios, mas não surtiram efeito.
É como se dentro de mim se criou um vazio e me penetrou um espinho que me rasga a carne. Estou mais morto que vivo. No fim do dia, eu me sinto mais angustiado. Tentando aliviar, pego o carro e saio sem destino. É tudo tão escuro! Parece que as luzes da cidade estão sem brilho. Ando quilômetros e quilômetros e depois volto prá casa.
Ás vezes, eu vou até o bar. Sento-me perto da janela, tomo algo, tentando anestesiar meu sofrimento, e fico esperando as horas passarem. Vê o rumo que tomou a minha vida. Tudo por sua causa. E agora, o que eu faço? Já não tenho tantos amigos, o dinheiro pouco me importa, a casa ficou muito grande. Acho que vou enlouquecer.
Onde tu estás?

Minha cara. Estou te escrevendo, é só o eu que posso fazer. Quero desabafar, mostrar a minha dor, o meu desespero. Perdoe-me se fui grosseiro. Quem sabe um anjo não leva esta carta para ti. Quem sabe um milagre não aconteça e tu voltes para mim. Tudo então vai ser muito diferente, podes crer. Serei mais carinhoso, não vou mais te fazer mal algum. Vou esquecer tudo o que aconteceu. Poderemos então, quem sabe, ter o filho que tu tanto querias.
Por que não?

Pedro Ricardo Pinto Carvalho

sem palavras

A cicatriz da alma, testemunha a travessia.
Naquela noite, era o momento de dar-se o encontro.
Ao te ver, algo gritou em mim.
Quando me dei, estava sentado frente a ti e lancei-me no jogo da sedução.
Planejava momentos de trocas, sem envolvimento.
Ledo engano.
Vieram as viagens, as férias, o natal e as noites na praia.
"Amizade apenas", afirmava eu aos outros.
Envolvido, adiava aquelas três palavras.
Mas o tempo exige a paga dos apaixonados.
Com ele vieram as cobranças.
A princípio em gestos; depois em dizeres.
E eu sempre com inúmeras justificativas:
"É necessário manter nossa independência.
Somos homens".
Chegou então àquela outra noite.
Deixei-te em frente à tua casa, na calçada.
Pelo retrovisor, eu via, entre lágrimas,
tua imagem cada vez mais distante.
Eu sabia... Não era o carro que se afastava.
No outro dia, me levantei bem cedo.
Bati em tua porta e, em silêncio, saímos.
Levei-te ao aeroporto.
Longe de ti, finalmente elas foram ditas: eu te amo.
Tarde, eu me conheci.

toque de prazer

olhei minha imagem no espelho.
na palma da mão distribuí gel.
com dois dedos, em suaves massagens,
transformei-o em espuma na face.
peguei a lâmina e deslizei no rosto.
suaves movimentos de ir e vir.
amaciei a pele, senti a suave textura.
espalhei loção, aspirei perfume.
cheiro bom. feliz, satisfeito.
eu me senti tão viril e tão meigo
na rotina de barbear-me naquela manhã.

she'óhl

ousei ingressar em lugares onde eu nunca deveria ir,
universo sombrio de infernais abismos,
onde o incerto e o tenebroso jazem vivos,
arrepio de morte em cada passo a seguir.

ousei penetrar lugares terríveis, asquerosos,
terra incógnita onde fantasmas, bruxas e vampiros
afrontam, covardes, os incautos ventureiros,
atacando-os de modo traiçoeiro, impiedosos.

ousei mergulhar, medroso e apavorado,
em lugares profundos de meu devir,
local insano dos arquétipos antigos, secretos,
aonde eu, cônscio, jamais me permitiria ir.

benedicta tu in milieribus

maria, mater dei,
ora pro nobis pecatoribus
nunc et in hora mortis nostrae.

valhei-me, ó virgem maria,
e, ao iniciar a necessária travessia,
guardai-me e protejei-me, vida minha.

e na angústia, envolvido no medo,
incapaz de atinar o hoje ou amanhã,
clamo teu certeiro amparo,
aguerrida esperança dos fracos.

e no instante derradeiro,
quando eu, só eu e ninguém mais,
quando o retroceder não mais existir,
defendei-me, mãe compadecida dos mortais.

transitivo ou intransitivo?

(todavia...)
eu amo
tu amaste
ele amava
nós amáramos
vós amareis
eles amariam

(se...)
elas amem
vós amásseis
nós amarmos
ela amar
tu amar
eu amar

(pois...)
eu amando
tu amando
ela amando
nós amando
vós amando
elas amando

(assim...)
eles amados
vós amados
nós amados
ele amado
tu amado
eu amado

toscanejar

noite fria qualquer de abril, fui concebido.
não sei se meu pai conheceu minha mãe
ou se minha mãe conheceu meu pai.
nem mesmo sei se foi amor ou usança.

só sei que assim passei a existir,
Deus até caprichou na figura
desenhou-me com traços assimétricos
bom de ver. originais e belos. estéticos.

o problema é que era frio, muito frio.
bem na metade do trabalho, ele cochilou.
e, meio acordado e meio dormindo, cabeceando,
ele se pôs a obrar o meu interior.

errou de cheio. bola na trave.
nem dentro, nem fora. não foi gol.
não escolheu a moral e os valores adequados,
criou-me fora do padrão, da normalidade.

numa manhã quente de janeiro, nasci.
outros tantos janeiros se passaram, mesmo primaveras,
eu crescendo robusto, alto, belo e formoso,
porém, maioria das vezes, não sabia pra que lado jogar.

foram-se tempos, enfrentei feras, rumei atalhos
rejeitei caminhos, feri, fui ferido, chorei. sorri.
e como Archimedes com sua lanterna,
vivi um eterno buscar não sei o quê ou quem.

em outra noite, a primeira do outono,
finalmente tornei-me flor e dei a luz a mim:
percebi e decidi: há alguém errado?
só pode ser o projetista, não eu!

Hannah karina, eta carinae

teu nome, em dueto,
memória antiga se compõe.
norteiam, estrelas, sul equatorial.

do passado bíblico,
como a mãe do Senhor,
és cheia de graça e compaixão.

da terra dos heróis míticos,
de helênicas mulheres,
revelas graça e encanto.

ora presente, ora ausente,
brilhas entre Centaurus, Vela, Puppis,
Pictor, Volans, Chamaeleon e Musca.

antes da espera

inverno, plantei roseira.
o broto anunciou, temporão,
os botões desabrocharam,
emanando perfume, o teu.

inundado em sol nosso jardim,
odiei o vento importuno,
mas era isso, vento. passou.
voltastes, enfim, primavera.

ausência

esta noite, na solidão de mim,
senti saudade dos teus defeitos,
tão essenciais agora,
eles, razão de infinitas guerras.

esta noite, mergulhei nas memórias,
vivi momentos teus junto aos meus ,
acalentei-me em tuas eternas palavras,
devorei o teu corpo, invasão.

esta noite, revivendo inesquecíveis batalhas,
senti o talho na carne da não despedida
e, como num filme lento e mudo,
tua falta tornou-se muito mais do que carência.

desbaste

Vesti-me de jardineiro,
afiei a tesoura,
preparei-me para a poda.
Imaginei formas,
projetei desenhos,
iniciei o labor.
Ajuntei os ramos,
corte rápido,
ai!, surpresa em vermelho.
Artista de mim,
em gesto (in)esperado,
dei-me nova forma.

tempo adverso

alma atormentada,
tormenta na alma.
demora da bonança,
porto mais distante.

mesmo assim vale a pena

Ignoro: pouco sei.
O existir é insuficiente,
o ter não preenche o vazio,
o saber é limitado.
Não domino meu destino,
minha história não me pertence,
quanto mais subo, mais subida.
Não posso salvar o mundo,
escolho o errado,
desconheço o melhor.
A dor é inevitável,
perder é o preço de viver,
quem amo me decepciona.
Sou covarde,
abandonei meus amigos,
trai meus amores.
Há muito que aprender,
pouco tempo me resta,
a finitude me envolve.
Muito sei: ignoro.

a vida é bela

médico curador,
sou chamado a aplicar,
no intuir e animar,
o bálsamo curador.

a uns, ouvidos atento
a outros, gestos de carinho
a terceiros, magia em som.

a todos uma poção
do meu tempo e do meu ser.
medida certa, porção.

médico curador,
atingido, mal sem cura,
carrego, em segredo,
ferida aberta, sangrador.

divino augusto

teu olhar, teu olhar, teu olhar
como é lindo teu olhar.
olhos atapetados em negros,
neles viajo, chão em diamantes.

acesos, sorriem luminados,
pérolas raras, escuros,
noite em estrelas, teu olhar,
eu, pro fundo, mergulho.

olhar encantado, encanta
olhar fascinado, me feitiça.
olhos em passeio de menino,
irriquietos, brincam de lá pra cá.

imperador, bruxo, feiticeiro.
ai. como é lindo teu negro olhar.
teu olhar, teu olhar, teu olhar.

desencontro

adão procura eva.
eva procura adão.
tão próximos.
não se deixam conhecer.

teseu

caminhei em inúmeros labirintos
escuros e úmidos
a procura de arrimo e aconchego

procurei o outro,
mas, verdade, buscava
a mim mesmo.

toquei e fui tocado.
em olhares sedentos,
dexei-me envolver.

instantes de satisfação,
momentos de êxtase,
vazio de sentidos.

perdido e só.
o efêmero, ainda que breve,
eternizou-me em seus braços.

não, sei, não

não sei
não quero saber
tenho raiva de quem sabe
sei mais do que queria saber
verdade dói

odisseu não sou ulisses

Todos os dias, pela manhã, ao levantar
Águas lavam meus sonhos
Olho-me no espelho
Vejo meu outro eu: guerreiro

Lâminas cortam meus espinhos
Unjo-me com perfumes
Visto-me em armadura
Eu enfrento o destino

Todos os dia, pela noite, ao deitar
Águas lavam meu corpo
Olho-me no espelho
Vejo meu outro eu: fragilidade

Mãos massageiam meus espinhos
Unjo-me com óleos
Visto-me em pele
O destino me enfrenta

apologia ao mandriar

Urge tanger em flautas.
Encantar bem as crianças
com pandeiro, dança e alegria.
Contar as crianças no bem
em roda, boneca e estripulia.
Urgente cantar as bem crianças
com teatros, rezas e sinfonias.
Encantar bem as crianças
com pássaros, flores e geografia.
Contar as crianças no bem
em letra, número, magia.
Urgente cantar as bem crianças
com balanços, colos e utopias.
Bem banidas -bandidas -
drogas, violências e mortes;
antes tarde que tardia.
É urgente nos encantar,
toar bem, bem, bem.

emudecer

Tagarelar, tagarelar, tagarelar...
cultuamos ouvir os nossos ruídos.
Sons estridentes, címbalos desafinados.
Urge acolhermos o mistério
do outro e das coisas que se revelam
em presença e vozes caladas,
muitas vezes amortecidas
pelos estrondos da nossa onisciência.
Diante do mysterium
só nos resta: silêncio e adoração.
Dê lugar para o soar,
cesse o tagarelar.

sphingo

Quanto mais os anos passam
mais me clareio incógnita.
Quanto mais me desvelo
mais me sinto inexplicável.
Gateando, venci a manhã.
Ao meio-dia, tornei-me andadeiro.
Tropeço e vislumbro o bordão da noite.
Mais Esfinge, menos Édipo,
percebo-me a beira do abismo.
Decifrado ou devorado,
a vida ainda não me estrangulou.

variação

A noite se fez dia,
o dia se fez noite.
Eu, senhor de mim,
outro grande Alexandre,
tornei-me guerreiro-menino,
rocha de gelo,
grito em dor.
Sem sonhos, estou falecido.
Como pude?
Não sei quando, nem como.
Conheci-me, repente, assim.
O sólido, o maciço inexpugnável,
num sopro, pena, flutuou.
Nem o ontem mais me pertence.
Por favor, estenda-me o peito...

amanhecer

Nesta manhã, sinto-me em profunda paz.
Dúvidas? Tenho e não poucas.
Mesmo assim, ou talvez por isso,
um sentimento bom toma conta de mim.
Respiro suave e profundamente.
É prazeroso.
Pode ser só momento, instante fugaz.
O dia poderá transformar-se, atribulado.
Quem importa?
No agora, vagante,
não futuro e nem passado,
pouco custosa e cadenciada,
a paz me embala dentro de mim.

espinho na carne

esperando escrevi cinco letras na areia.
ondas contrárias,
não te apagaram.
lembrei-me do vento.
traiçoeiro,
soprou-as minuano pra dentro do peito.
toda noite meu coração sangra,
ferido de amor.

retroversão

Deus...
Eu juro que ouvi:
solteira, tua filha gerou um filho.
Pecadora, não é fonte de bênção.
Concebido em transgressão, é fruto maldito!
deus justiceiro.
Camisinha, posições, parceir@s...
um deus deveras preocupado.
Roubo, insídia, exploração,
grito dos pobres,
violentar viúvas e crianças.
Desinteressante.
Ah final: quando invertestes a ética pela cama?

psicologismo

Sinto o teu olhar reprovador.
Se estás assim é culpa tua.
Não te quisestes bem,
não te cuidastes.
Irresponsável suicida!
Sim, fácil supor cruéis juízos,
trabalhoso existir no mistério calado.

Sinto no teu doce olhar.
Eu sou indulgente, caridoso.
Eu sou tolerante, benigno.
Eu sou o bom, salvador.
Sim, teu olhar são ditos que doem.

Desejoso, na sede, estou.
Bastava-me amorosa presença.

Ai de mim.
Ai em ti.
Aids nós.

transubstanciando

Diz o texto sagrado:
o verbo se fez carne.
Desdiz o theologikós:
a carne se fez verbo.

palavrear

Discursar Deus é pouco custoso.
Eu mesmo me arrisco
duas ou três vezes por semanas.
Vezes mais, vezes menos.
Pretencioso, ousei:
"este é o projeto sagrado,
sua vontade é esta,
não é o que ele pensa!
Isto ele não quer,
aquele é rejeitado,
assim é benquisto".
Porta-voz de mim próprio.
Êxtase em toar som estridor.
Desconstrução em convencido teologar.
Tagarelar Deus é muitíssimo fácil...
Mistério é sentir quem é, sem jamais ser.
As crianças, os poetas e os artistas
são os místicos mais dignos de fé.
Desarmados em experienciarem o divino-humano.
Mas, não envergonho-me da teologia.
Ela é chave para eu porteiro.
Não é a porta, nem é o átrio.
Muito menos o jardim que dá pra rua.
Se imaginada única que compete abrir,
ameaça é de acostumar-se tranca.
Nada afirmo, muito menos digo.
Mais uma vez só jogo palavras...

tragédia ou comédia?

No palco da vida sou autor e ator
e, maioria das vezes, igualmente platéia.
Morta é a vida no apenas representar papéis,
urge então o atuar no existir.
No desenvolver das cenas, sem roteiros,
não há ensaio para os gestos ou palavras.
Só há os riscos de ser vivente
em enfrentar o palco-picadeiro
no imprevisível dos aplausos ou vaias.
Difícil, mesmo, é deixar o palco,
abandonar a cena,
permitir outros scripts,
talvez mais significativos que os meus.

enigma

Alguma pessoa me disse:
"Padre, não te entendo".
Pensei, pensei e afirmei:
"Eu também não".

confissão

- Adão, tudo bem?
- Legal aqui né? Muito legal...
- Em que posso te ajudar?

- Diz, o que devo fazer pra me tornar padre?
- Além da vocação, é necessário estudar. Depois do ensino médio, filosofia e teologia.
- ... eu parei na oitava série. Devo começar então? Vai levar muito tempo.
- É, não pode ter pressa.
- ufa, que alívio...

- Quero saber uma coisa.
- Sim?
- Eu também sou do sul. Somos em oito irmãos: uma é Sarion, outra Jezebel, tem ainda o Israel e o Ezequiel. Paulo de Tarso, Míriam e Davi.
- Tua tradição é evangélica?
- Minha mãe é crente. Mas não quero saber deles não. Prá lá não volto.
- ... certo...

- Minha vida é uma desgraceira só. Meu sobrenome é italiano. Sabia que minha mãe é de lá? Possuo dupla cidadania. Morei na Itália até os doze anos.
- Aonde?
- Perto de uma igreja bem grande. Quando voltei pro Brasil, meu pai me usou. Já lhe falei isso na semana passada, né?
- Não...
- Por isso, não quero voltar prá minha gente. Tudo que eu queria era arrumar minha vida. Não posso mais ficar no albergue.
- Por quê?
- Eles roubam tudo de mim... Segunda, consegui vender 20 reais. Tinha assim de neguinho querendo emprestado... Consegue um lugar aqui perto. Sabe, eu trabalho no centro. Mas já fui, com o meu carrinho, até Santana.
- Longe, heim?

- Já morei em Florianópolis. Embaixo da ponte Hercílio Luz. Os americanos queriam comprá-la por 120 milhões de dólares.
- Não é muito dinheiro?
- Nada. Eles tem muita grana. Porém, eles não iam levar. Só ia ser patrimônio deles . Colocavam a bandeira lá no alto. Imagina só se iam deixar...
- É... ia ser difícil.

- Pois é, arruma um local pra mim... Mas, eu não posso pagar.
- ...
- O que eu faço?
- O que tu queres fazer?
- Voltar pra minha cidade. Já disse, no albergue está muito ruim. Digo o que penso. Tem muita gente de olho grande e outros que não me tratam bem. Se eu for expulso, não vou sozinho. O que eu faço?
-Quem sabe arranjamos um outro lugar.
- Vou pagar com quê? Me ajuda, o que eu faço?
- ... sinceramente, não sei...

- Padre, posso voltar semana que vem pra ver se o senhor arranjou algo pra mim?
-Pode. Venha sempre que quiseres.
- Então, tá.

bodas

Na noite sonhei.
Vi um espelho
e nele refletido um casulo.
Lindo e enfeitado, sendo transportado.
Eu, em embalos suaves, dormindo sereno.
Caminhos amenos, serenos, organizados.
Jardim bem cuidado: gramas, ipês, ciprestes e jasmins.
Pássaros em canto.
Anjos e monumentos,
alguns simples, outros suntuosos.
Bronze, mármore de Carrara
e mesmo alguns detalhes em ouro.
Era um dia de sol.
Antes do passeio,
unira-me àquela que sempre estivera,
ladina e matreira, ante a mim.
Ela me tocou,
me acolheu nos seus braços,
acarinhou meus cabelos
e beijamo-nos ardentes.
Tornou-se, assim, minha companheira.
Desposei a morte.