'anima geminum'

teus olhos.
verdes.
mares.
oh! espelho.
mergulhei,
profundo.
juventude.
perdida.

frênise,
paixão,
abrasador,
solstício.

teus olhos.
vastos.
abismo.
passado em
presente.
ardente.
imagem.
eu em ti.

aquinhoar

não me importo
com a qualidade das letras.
importo-me
com a necessidade de me expressar.
tudo mais é vaidade.

dormiens

como é bom adormecer
e no meio da noite
dizer-te o que
não tenho coragem de te dizer.
sem medo. sem temor.
a censura se esvai
e as palavras imaginadas
gritadas espontâneas,
livres e soltas,
sem escrúpulos.
como é bom saber
que terei a noite
a meu dispor
para te falar
o que acordado
não me permito.
Acordo é isto:
dizer o que não se pensa,
calar o que se quer.
mas a noite,
envolvido pelo sono,
inconsciente (?!),
digo-te tudo, tudo mesmo,
sem pudor algum.
do pior modo possível.
ai. que alívio!

incondicionalmente condicionante

se não houvesse derrota,
qual o quê da vitória?

se não houvesse a morte,
qual o desafio da vida?

se não houvesse traição,
para que a conquista?

... e se não houvessem perdas?

se, se, se...
sempre haverá um se.
a inquietar,
a condicionar,
a provocar.
a nos fazer levantar,
a nos empunhar espadas,
a nos ungir de perfumes.

insone

por que insistes,
no meio da noite,
a gritar por socorro?
a madrugada é para o sono,
talvez para o amor.
não para traçar destinos.

nem bênção, nem maldição

muitos esperam em meu dizer
que eu diga
o que eles esperam
que eu diga.
sim, eu não sei.

muitos esperam em meu dizer
que eu diga
o que deus espera
que eu diga.
não, eu não sei.

querem que eu bem diga:
deus lhes abençoará,
tirará as pedras do caminho,
a vida não lhes será cruel.
sim, eu direi.

querem que eu mal diga:
deus lhes amaldiçoará,
tirará a saúde,
lançará no inferno.
eu não direi.

fremi de carinho e ternura ao sentir a presença cheia de luz,ó brisa suave. desperto, vageava no mistério do teu abraço envolvente, universo-vertigem.

yeh-o-shua!

envolvente

calculei a meta,
planejei a viagem,
escolhi as paragens.

o encanto tomou posse de mim.

que alegria descobrir estrelas.
navegante de sonhos,
viajo por lugares infinitos
dentro e fora de mim.

é preciso ser cego,
duro de ouvidos,
língua travada,
para descobrir o real das coisas.

encantar-se pelo canto da sereia.

olhos atentos,
ser todo audição,
sensível às palavras,
entender o coração.

quem nunca ousou
viajar além da razão
nunca chegará às estrelas.

ah se fosse fácil assim

os que tentam decifrar-me
talvez saibam mais de mim
do que eu próprio sei.
talvez eles julgam saber.
nunca estou certo,
mesmo quando pareço tão seguro
em determinar meu destino.
confesso: isto me irrita,
não pela certeza de outros,
mas pelo desconhecido
que habita dentro de mim.
quando outros dizem que eu sou,
mais me desconheço.
os outros não são espelhos,
por isso, mesmo imagem invertida,
surpreendo-me a maioria das vezes.
nunca sei, jogo as cartas na mesa.
cego de mim, talvez seja eu
o filho da noite e do caos.

πόρνη γραφή

ao te ver, fiz-me luz.
tão meigo, tão meigo, tão meigo.
passou a noite mal dormida,
vencido o cansaço, solidão.
radiante brilho, teus lábios,
entreabertos, prontos para o amor.

ao te ver, fiz-me calor.
tão  forte, tão forte, tão forte.
aquecido do inverno eterno,
acelerou o meu coração.
teu olhar, em chamas, faca afiada,
dividiu a medula,
fremiu o desejo adormecido.

ao te ver, fiz-me explosão,
tão intenso, tão intenso, tão intenso.
corpo, suor, cheiro, toques,
invasão de duras línguas,
bocas violadas, néctares sorvidos.
a dança ritmada do ir e vir.
golpes, lançaços de guerra,
lânguido torpor, frenesi e paz.

(des)cubra-me

gotas de esperteza,
alguma malícia,
dose de curiosidade.
apimente de contraste.
muito contraste.
coragem!
necessário é
ir do aparente não 
para achar
o carvão
oculto
por mim.
muito
não desnudado
de mim
para ti.
tente,
decifra-me.
prometo não te devorar.
ou...

ϕοῖνιξ

vôo.
além vida, vi a morte,
palavras não ditas.
ardor.
ditas não palavras
a morte vi(,) vida além.
êxtase.

pentecostes

uma senti.
duas falastes.
três ouvi.

amante,
amorosa-amado,
sabe, segredo.

gritos em silêncio,
mudas palavras,
sussurros...

brisa,
sopro.
encanto suave.
ardor.

é amor.

chama que crepita,
água refrescante,
mãos em afagos.

na aflição, consolo.
no despero, alento.
paz no confronto.

força.
feminina.
ternura.
masculina.
humano.
divina.

vem!
hóspede da alma.

mistério

um mais um,
resultou três.
um é deus,
divino é trino.
o bem querer
de dois únicos
resulta trindade.

não é soma,
é diversidade.
acolho
o totalmente
outro,
torno-me
o totalmente
eu.

questão de valores

muitos valorizam cifrões,
outros, pessoas em números;
existem os que somam posses,
há aqueles que confundem-se
com a marca daquele ano.

mas o tempo é cruel com todos.

prata, corroída.
empresas, falidas.
capital, subtraído!
velocidade enferruja.

o amor eterniza, mesmo passageiro.

acabou

foi-se o tempo que se chamaria amanhã
e com ele a esperança e o desafio.
foi-se porque não veio.
agora vago solitário com meus medos,
ou, mais que isso, minhas desilusões.
Para quem o futuro não existe
nem o medo lhe é companheiro.
só tememos o que ainda pode ser.
infeliz quem perdido o direito do temor.

do vêneto

Dalla Italia noi siamo partiti
Siamo partiti col nostro onore
Trentasei giorni di macchina e vapore,
e nella Merica noi siamo arriva'.

Merica, Merica, Merica,
cossa saràlo 'sta Merica?
Merica, Merica, Merica,
un bel mazzolino di fior.

E alla Merica noi siamo arrivati
no' abbiam trovato nè paglia e nè fieno
Abbiam dormito sul nudo terreno,
come le bestie abbiam riposa'.

Merica, Merica, Merica,
cossa saràlo 'sta Merica?
Merica, Merica, Merica,
un bel mazzolino di fior.

E la Merica l'è lunga e l'è larga,
l'è circondata dai monti e dai piani,
e con la industria dei nostri italiani
abbiam formato paesi e città.

Merica, Merica, Merica,
cossa saràlo 'sta Merica?
Merica, Merica, Merica,
un bel mazzolino di fior.

Merica, Merica, Merica,
cossa saràlo 'sta Merica?
Merica, Merica, Merica,
un bel mazzolino di fior.

(cantiga popular dos imigrantes do Vêneto)

arrepio

assentei-me no cume da montanha.
noite escura, céu estrelado,
via-láctea, lua nova.
o mistério encantou a mim.
desci ao mais profundo
do meu ser em existir.
dexei-me tocar pelo divino:
gozo, dor e estupor.
em êxtase, quase demente,
penetrado de universo.
além da infinitude.
então...
entoei uma ancestral cantiga,
dizeres desconhecidos,
loada, sempre vez ,
pelo pai do meu pai.

ramo seco em canto

nem tudo é poesia.
sim, tudo  é poético.
necessário ver estranhado.

tua ausência, não poesia,
cheia de tons pelo verso,
é poética. enternece.

na carência, há beleza?
sempre é belo o olhar da alma
quando vai além do além.

eis ali do horizonte, o sol brilha.

vespertino-matutino

sinto-me crepúculo no coração.

vir à luz, destruindo noites;
vir às trevas, construindo dias.
anoitecer e amanhecer.

aurora em crepúsculo.

paz de guerreiros,
rebelião de fustigadas;
inversão de papéis, juízos.

crepúsculo em escurecer .

instante mágico entre foi-será.
acabou dia, chegará noite;
dia chegará, noite acabou.

sinto-me crepúsculo no coração.

requiem aeternam dona eis, domine. et lux perpetua luceat eis.

calou-se o 048.
conversas triviais, simples informações
e dizeres do dia-a-dia. domingueiras.
ditos complicados, afetivos,
cheios de significados. domingueiros.
dói aqui, fui lá, a festa foi boa.
tua irmã está assim,
teu irmão fez isto,
teu sobrinho passou...
o São Roque está lindo!
coisas assim, construtoras da vida.
outras difíceis, desafiadoras do coração.
a distância, mesmo que por um instante,
tornava-se amorosamente perto.
No último domingo de tua voz,
(quem poderia imaginar que seria o último)
foram ditas, fracas mas audíveis,
o resumo de tua vida.
Está tão bom:
Carmela, Eunice, Eliete,
Vanilda, Amábile, teus irmãos e irmãs,
estão aqui... aqui estiveram...
quando virás?
(seria mais rápido do que imaginávamos,
naquele início de noite, despedida).
não sei, disse eu
(tentando ao máximo adiar
o que seria tão breve).
estou bem cuidada!
pessoas enchiam tua vida,
envolver-te com elas,
construir sonhos coletivos.
tua missão: cuidar, zelar, proteger.
fostes cuidada até o fim.
e na tua lucidez eterna,
partistes, para sempre estares aqui.
dona Adélia, minha mãe.
resta-me a pergunta:
qual é agora o código do telefone?

de profundis

da longe senti um arrepiante no corpo,
cada centímetro de pele enriçado
e a parte mais escondida, arrugada.
uivo terrível, ululante,
- arre égua! -
apartada a espinha no meio.

mesmo tremoso, embebido,
encarei o vulto medonho e escuro.
pêlos espinhentos, éctimas em crostas.
sexta-feira maior, a da paixão,
noite d'almas desencarnadas, vagantes.

mula sem cabeça, lobisomem,
coisa ruim ou o capeta?
não tive tempo pra decretar.
espiei bem fundo no sanguinolento zolho,
lobrigando o amaldiçoado no espelho.
certeza certa - era eu mesmo! - não logro.

ser ou não ser?

rosa choque, pra chocar.
azul macho, pra machucar.
ate o super homem
pode nao ser homem,
e a mulher maravilha
pode nao ser maravilha.
e tudo pode ser
e nada pode ser.
por minha culpa,
minha culpa,
minha maxima culpa!
errar eh divino.

nao tenho o que dizer, escrevo. senao eu vou enlouquecer. nao procure, nao ha sentido. so dedos no teclado. nada mais.

palavras.
mesmo não ditas,
mesmo não codificadas,
salvam a alma.

sou verbo,
sou pronome,
sou adjetivo,
sou prefixo,
e, também, sufixo.

fui desejo,
fui memória,
fui sussurro,
fui estrídulo.

agora sou.
melhor, fui.
promessa da mente,
serei?

ensaiadas.
ditas.
desenhadas.
palavras.

abandonar

dói-me ter que esquecer o amanhã.
tantos sonhos,
tantas carícias,
tantos beijos,
tantas brigas,
tantos dias,
tantas noites.
tantos. tantas.
possíveis.
promessas.
agora é descuidar de me alembrar.

transcedência

se o sol ousar despontar no oriente,
sentirei o destino, hercúleo, a chamar-me;
montanhas.
não nasci pras planícies, nem pros vales.
meus olhos sedentos do infinito,
paisagem incontida, além.
lá onde me sinto finitude,
abarco em meus olhos
o sem fim horizontes.
contempla minha alma,
extasia-se do etéreo,
embriague-se do incontido!

desejoso

desejos são perigosos,
derrubam muros,
estabelecem pontes,
geram filhos,
assassinam,
criam jardins,
roubam beijos.
incontroláveis,
chucros.
necessitoso em domá-los,
vivo de conta.
acordo. me ocupo. durmo.

tão incerto

frágil como todas as crianças,
seu choro interrompe o curso das estrelas,
enquanto o perfume da dama da noite inebria.
tudo é paz,  é incerteza.

terá comida? agasalho? escola?
superará as agruras do inverno próximo?
são as poucas de inúmeras perguntas,
que a mãe engana no embalar o seu neném.

outras virão, é certeza.
destino severo, extrema pobreza.

e na espera do novo dia,
ouve-se, bem longe, o balido da ovelhas
e o grito rouco do pastor da noite,
parecem anjos, arautos de boa notícia.

feito de vaga-lumes, cocho e palha,
belo, mas sem aparência ou neve,
aquele presépio, o único e original,
anuncia algo novo, inaudito.

e assim deus habitou o mundo.

é de paz que eu vou falar

no meio de tantas incertezas,
além das traições e desesperos,
meu coração sonha aprender de novo.

aprender a confiar nas pessoas,
aprender a brincar por bincar,
aprender a sonhar que tudo é possível.

meu deus,
és bom e infinitamente amoroso,
lento em punir, pronto a perdoar,
ensinai-me o segredo de ser homem.

não mais do que isto te peço,
que eu saiba ser divino, amando
e saiba ser humano, acolhendo.

que eu derrame lágrimas,encantado,
diante das pequenas coisas:
o brilho das estrelas,
o perfume das flores,
o barulho do mar.

que eu não me torne insensível
ao abandono de homens e mulheres
largados a própria sorte
embaixo de viadutos
e ao longo das avenidas
desta grande metrópole.

que eu não me conforme com o inconformável,
que a cruel omissão de socorro,
a covardia e o falso interesse,
não recebam os louros da vitória final.
dai-me sempre o poder transformador da ira,
de indgnar-me diante da injustiça. Amém.

sermão de domingo

Perguntam-me: és um religioso?
Respondo: sou.
Por que teus textos falam pouco de Deus?
Não creio que Deus esteja ausente nos meus escritos.
Talvez de modo diferente, mas está muito presente.
Tudo que é humano, é divino.
Prefiro falar de minhas experiências de homem, varão,
nas minhas alegrias e dores,
virtudes e vícios,covardias e heroísmos,
saúde e doenças,abstinências e prazeres.
Bruto e sensível.
Sou assim, contraditório. Sempre.
Na contra-mão da vida, sinto a transcedência.
Pedem-me: seja mais recatado.
Não tenho mais idade para isso!
Indagam: amas alguém?
Pergunto, eu: é possível ser amado, sem amar?
Homem ou mulher?
Importa? Homo ou hétero não é a questão.
Pra mim, é: somos capazes de nos humanizar?
Sofrer com os que sofrem,
emocionarmo-nos com uma rosa ou a chuva,
sentir uma criança, construir jardins,
fazer discursos, apreciar boa comida.
Lutar com os vulneráveis da sociedade.
Chorar em casamento ou enterro.
Ou mesmo num filme bobo.
Ter dor de barriga diante de pessoas dormindo na rua Araújo.
E correr para o metrô, tentando esquecer.
Já disse, sou covarde. E também medroso.
Há gays e não gays bloqueados na sua humanidade.
Católico, metodista, presbiteriano, mulçumano, ateu...
Experimento Deus na tradição religiosa católica,
é um presente que recebi dos meus antepassados.
Está no meu dna.
Mas não acredito que é o único jeito de amar a Deus.
Nem o mais complento; nem é o mais deficitário.
Amo a missa, Nossa Senhora e confesso-me.
Rezo os salmos quase todos os dias.
Jesus não foi católico, foi judeu na religião.
O importante é amá-lo de todo o coração,
com toda a mente, com todo o meu/nosso ser.
Tenho fé, não certezas.
Tenho esperança, não verdades.
Sou isto e não sou ao mesmo tempo.
A inconstância também me explica,
mas não me define.
O que Deus quer de mim?
Não sei.
No escuro, procuro descobrir.
Tenho receio em partilhar isto,
mas partilho.

tristeza, não quero poetizar

quando amamos alguém,
no infinito de nosso ser adentro,
no mais profundo do sentir,
e esta pessoa parte,
arrancada de nós
ou se despedindo pra sempre,
isto dói mortalmente.
acostumamo-nos, mas sem esquecer.
o tempo ameniza, eu sei,
mas é só isso: ameniza.
o tempo é incapaz na cura
da saudade de um grande amor.
adquirimos costume da ausência.
só isso, nada mais.
e o mais bonito é que,
ainda que sofridos,
continuamos a nos mover,
continuamos a lutar,
continuamos a esperar cada amanhecer.
e não desistimos dos sonhos.
talvez, agora, por nós próprios
ou, quiçá, por causa de quem se foi
ou - quem sabe? - por ambas razões.

perene

chão turricado, depositei a pedra.
lavrei onze letras, para sempre.
admirando formas, penetrei reentrâncias,
deixei-me envolver em lembranças.

cristais preciosos esvairam, janela da alma,
amolecendo o solo, tornando-o prenhe.
sorri, memórias, alegrias partilhadas.
derramando sonhos tirados, promessas ainda.

vieram sóis, luas pratearam mares.
voltei ao altar sacrossanto , monumenta.
tomei-te então botão, rosa amarela.
imortalizei entre páginas, nosso diário.

bosque de árvores frutíferas

deus a criou mulher,
fez-lhe coragem, vencer batalhas.
guerreira da paz, meiga nas guerras,
desafios, carinho, entrega. não temes.

sofrer sim, retroceder jamais.
em teu nome, destino ou promessa,
traçad0 no berço, história construída,
desprezas o singular, és muitas.

não suficiente ser árvore,
és coletivo, bosque,
lugar de amantes, prazer no fruto.
mais que frutífera, és cheia de vida.

marli de santo aníbal,
marli de santa madalena,
marli do união, tantas numa só,
encanto em nome, tradição helênica.

separação

nem partistes e já sinto a saudade da ausência,
nem fostes e já sinto a distância que separa.
curitiba, ontem tão perto,
hoje parece-me além do oceano.
é verdade que para quem ama não existe distância.
amar-te é tudo que posso permitir-me.
amo-te. tu sabes? sei que sim.
e a pergunta que não tenho coragem de fazer:
tu ainda me amas?

fulminante

não foi preciso toques,
nem mesmo palavras,
bastou fitar de olhos,
meu castelo de certezas ruiu.

sei, não mais me engano,
ainda te amo
e, ainda que tenhas tantos,
serei eterno teu.

triste? não, destino.
mesmo inexistente em ti,
mesmo que digam contrário,
vivo por teu viver.

rev(s)olução

"é para sempre,
eu te apaguei da minha vida".
e assim passaram os dias
que se fizeram anos.

eis teu vulto moreno,
teus olhos negros,
teus cabelos revoltos,
teu cheiro almíscar amadeirado.

bastou apenas um instante,
menos que um átimo,
para invadir meu coração.
silenciado, serei eternamente teu.

inteiramente grávido

amanheceu.
campeei e lancei-me a semear.
escolhi com zelo, pérolas únicas,
apuradas e prenhes de promissão.

atirei-as ao léo, com cuidado,
terra ávida aspirando sêmenes.
procurei ser certeiro,
preciso é.

algumas rebuscadas,
outras simples,
a maioria comuns.
não poupei esforços, nem sementes.

num jogo travesso e generoso,
com delicadeza e conciso
em constante brincar,
divertimento.

passei o dia em semeaduras,
entre versos e prosas.
canteiros sem fins,
dádiva em palavrar.

anoiteceu,
recolhi meu bornal.
finalmente nos teus braços
fui fecundado por teu silêncio.

quimera

quanto mais anoiteço,
mais sinto medo do medo.
quanto mais enturvo,
mais ignoro a razão.
certezas, mais na infância.
mais fácil idolatrar-se, vencedor,
mais penoso amar-se, perdedor.
ah se a vida fosse menos palmas...

iago e marcus

montanha.
planície.
um suspirando o além nuvens,
outro aspirando a ardente brisa,
um apropria-se do seu fardo,
outro recosta a sua bagagem,
escalada.
chão.
pedra após pedra, fragilidade,
pedra com pedra, circundado,
ganchos, corda, vento.
gravetos, carvão, fogo.
ritual antigo, ascenção,
rito ancestral, purificação,
vertigem, intuir-se além.
equilíbrio, sentir-se agora.
intante místico, vencedor.
momento mágico, confortador.
êxtase, mistério, temor,
sossego, silêncio, louvor,
um, inebriado de altura, vereda o chão,
outro, sóbrio de horizonte, galga o céu,
ambos no planear a si.

marcus

planície.
aspirando a ardente brisa,
recosta a sua bagagem,
chão.
pedra com pedra, circundado,
gravetos, carvão, fogo.
rito ancestral, purificação,
equilíbrio, sentir-se agora.
momento mágico, confortador.
sossego, silêncio, louvor,
sóbrio de horizonte, galga o céu,
no planear a si.

iago

montanha.
suspirando o além nuvens,
apropria-se do seu fardo,
escalada.
pedra após pedra, fragilidade,
ganchos, corda, vento.
ritual antigo, ascenção,
vertigem, intuir-se além.
intante místico, vencedor.
êxtase, mistério, temor,
inebriado de altura, vereda o chão,
no planear a si.

marcus e iago

montanha, planície.
um suspirando a ardente brisa,
outro aspirando o além nuvens,
um apropria-se da sua bagagem,
outro recosta o seu fardo ,
chão, escalada.
circundado, pedra após pedra,
fragilidade, pedra com pedra,
ganchos, carvão, vento.
gravetos, corda, fogo.
purificação, ritual antigo,
ascenção, rito ancestral,
intuir-se além, equilíbrio.
sentir-se agora, vertigem.
momento mágico, vencedor.
intante místico, confortador.
sossego,
mistério, louvor,
êxtase, silêncio, temor,
um, sóbrio de altura, vereda o céu,
outro, inebriado de horizonte, galga o chão,
no planear a ambos .

nada de novo

"... é na fraqueza que a força se perfaz.
Por isso, me é suficiente a tua gratuidade "
(São Paulo)

jornada reescrita

1. inferno
Era noite.
Pedro, sentado, naquele bar,
mais uma vez levanta o copo.
Nele vê refletida a imagem de Maria.
Pele macia, morena.
Olhar trigueiro e lábios carmesim.
Curvas suaves, infinitas.
Um arrepio lhe corta a alma.
Inverno.
Está só.
Ele, o Pedro!

2. céu
Luz, muita luz.
Primavera.
Manuel ama Maria.
Maria ama Manuel.
Tão simples, assim é o amor.
Tão intrigante assim, só a vida.
Que bom!
Esqueceu-se de Pedro.
Ela se sente plenamente Maria.

3. mar
Uma brisa ardente toca o seu rosto
e esvoaça, suave, seus cabelos.
Nos seus olhos, o mar verde esmeralda.
Ondas furiosas esculpem,
em constante eterno, rochas.
Gaivotas deslizam, majestosas, infinito.
Maria toca, com carinho, a sinuosa curva.
Uma onda serena de satisfação e prazer
faz tremer a alma.
Sorri, encanto. Está prenhe!
Fruto do amor, gerado no amor.
Verde e azul, mar e céu se confundem.
Calor e liberdade se abraçam.
Tempo bom.
Início de verão.

4. terra
Gabriel repousa em seus braços.
Anúncio e mensagem, teofania.
É outono.
Suavemente, ela o aconchega e embala;
de seus lábios brotam antigas canções.
Calma e acalma.
Plenitude.
Ah, aquela noite de inverno, primeira de muitas.
Lençóis manchados, revoltos.
Suor, sêmen, semente, amor e paixão.
Estremece.
Adormece tranquilo em seu regaço,
o bendito fruto de Maria.

5. exílio sem fim
Maria, (sua puta)
Por quê?
Eu bem que devia ter ouvido os conselhos a seu respeito: “Olha de onde ela vem. Ela não tem classe. É bonita sim, mas não vale nada. Tens tanta grana, por que vais te amarrar a esta mulher? Case-se com uma mulher da tua classe social. Fode ela, depois larga" e outras coisas mais. Mas eu, perdidamente apaixonado, não dei a mínima às advertências. Ao invés, resolvi arriscar tudo em você. Deixei-me envolver. Você era tão linda. Parecia tão inocente.
Então, eu dei o que lhe podia dar de melhor: casa, riquezas, um sobrenome, amigos importantes. Fui o primeiro homem na sua vida. Ensinei a você a arte de amar. É você aprendeu bem depressa, né? Aliás, foi esta sua tendência à safadeza que começou a me incomodar.
Onde você anda?
Graças a mim, você pode conhecer um mundo novo. Classe, cultura, viagens... Seu mundo foi ampliado para além do Tietê.
Lembra aquela viagem que fizemos à Europa? Você queria conhecer ‘Bagnoreggio’, só porque foi o lugar onde começou a novela Esperança. Coisa de mulher, mas eu levei você lá. Eu cheio de orgulho, lhe mostrei Veneza, Florença, Roma e Nápoles. Muitos lhe admiravam na sua beleza tropical. Fiz até algumas cenas de ciúmes, lembra? Depois fomos a Paris. Não sei porque você não gostou de lá. Achou que a cidade era muito cinzenta. Gente muito fria. Como você se divertiu em Santiago de Compostella, Porto e Lisboa. Fomos a tantos lugares... Bem diferentes da Vila dos Remédios.
Creio que foi nestas andanças que você iniciou o me enganar. Só não ia prá cama com outro porque eu marcava cerrado. Eu sei. Você não me traia com o corpo, mas com certeza era infiel nos pensamentos. Será que você era sincera quando fazíamos amor? Nos útimos tempos andava tão fria, distante... Deve ser porque tinha outra pessoa na mente. Não, não pode ser. Eu era o melhor que você poderia ter. Ótimo amante, melhor que qualquer um.
Onde eu andei?
Tá certo. Eu era um pouco ciumento e, algumas vezes, exagerei e não pude controlar minhas reações. Mas era porque eu gostava muito, mas muito mesmo, de você. Pode não acreditar, mas eu gostava mesmo! Como poderia então deixar você livre e solta?

Eu tinha os compromissos sociais. Era alguém de muito trabalho. Você sabe, um homem como eu é sempre muito assediado. Por mulheres lindas e interessantes. Elas eram bem fáceis. Um macho não pode dar moleza. Mas o meu coração sempre foi seu. Pode ter certeza disso. Eu não queria perder você por nada neste mundo.
Você era muito bonita, marcava presença. Muitos homens queriam você. Pensa que eu não sei? Você era uma feiticeira, capaz de seduzir com o olhar. Enlouquecia tantos com sua sensualidade. E eu me sentia orgulhoso e poderoso por você ser minha.

Por isso, em alguns momentos, fui violento. Peço-lhe perdão, mas eu não podia controlar este sentimento. Sei que uma ou duas vezes exagerei. Era amor, pode crer. Sim, era amor. Eu não lhe queria fazer mal. É por isso que, arrependido, reparei meus acessos de raiva. O Chagas sempre lhe cuidou bem, nestes momentos. Ele é um médico muito competente, discreto e amigo. Curou as feridas, não deixou marcas.
Onde você está?

Sabe Maria, não imagina você o vazio que senti quando voltei do Rio de Janeiro e não lhe encontrei em minha casa. Recordo bem. Um dia frio de fim de abril. Anúncio de um inverno rigoso, previam os meterologistas. Pensei que estaria me esperando, pronta para me aquecer. Enganei-me, o quarto estava vazio.
Quando a Vitória me disse que você tinha partido, eu não acreditei. Só podia ser um mal entendido. Procurei suas coisas: roupas, jóias e perfumes. Tudo estava lá, no lugar de sempre. Até mesmo as nossas fotografias. Imaginei, mesmo proibida, teria ido passar um tempo em sua casa. Mas tudo bem, estava disposto a lhe perdoar. Esperei dias e dias por um sinal seu e nada. Fui até na vila! Foi então que fiquei sabendo que seus pais já estavam mortos. Você? Ninguém sabia.
Vou lhe confessar. Desesperado, coloquei uma pessoa para descobrir o seu paradeiro. Mas... Nenhuma pista. Nada. Você está viva? Queria tanto receber notícias suas. Não sei. Um simples telefonema, um bilhete, um recado apenas. Sei lá.
Onde eu estou?
Não consego mais dormir direito. Perdi o interesse pelos amigos, pelas festas e até mesmo pelo trabalho. E você sabe o quanto estas coisas eram tão importantes para mim. A princípio, comecei a ficar mais em casa. Meus parentes e amigos estranharam, demonstraram preocupação. Falaram que isto iria passar, que já estava previsto. Falaram até da Laura e outras coisas mais. Mas isto não me deu sossego, parece até que ficou mais difícil levar adiante a vida. O Chagas, sempre ele, tão prestativo, me receitou uns remédios, mas não surtiram efeito.
É como se dentro de mim se criou um vazio e me penetrou um espinho que me rasga a carne. Estou mais morto que vivo. No fim do dia, eu me sinto mais angustiado. Tentando aliviar, pego o carro e saio sem destino. É tudo tão escuro! Parece que as luzes da cidade estão sem brilho. Ando quilômetros e quilômetros e depois volto prá casa.
Ás vezes, eu vou até o bar. Sento-me perto da janela, tomo algo, tentando anestesiar meu sofrimento, e fico esperando as horas passarem. Vê o rumo que tomou a minha vida. Tudo por sua causa. E agora, o que eu faço? Já não tenho tantos amigos, o dinheiro pouco me importa, a casa ficou muito grande. Acho que vou enlouquecer.
Onde tu estás?

Minha cara. Estou te escrevendo, é só o eu que posso fazer. Quero desabafar, mostrar a minha dor, o meu desespero. Perdoe-me se fui grosseiro. Quem sabe um anjo não leva esta carta para ti. Quem sabe um milagre não aconteça e tu voltes para mim. Tudo então vai ser muito diferente, podes crer. Serei mais carinhoso, não vou mais te fazer mal algum. Vou esquecer tudo o que aconteceu. Poderemos então, quem sabe, ter o filho que tu tanto querias.
Por que não?

Pedro Ricardo Pinto Carvalho

sem palavras

A cicatriz da alma, testemunha a travessia.
Naquela noite, era o momento de dar-se o encontro.
Ao te ver, algo gritou em mim.
Quando me dei, estava sentado frente a ti e lancei-me no jogo da sedução.
Planejava momentos de trocas, sem envolvimento.
Ledo engano.
Vieram as viagens, as férias, o natal e as noites na praia.
"Amizade apenas", afirmava eu aos outros.
Envolvido, adiava aquelas três palavras.
Mas o tempo exige a paga dos apaixonados.
Com ele vieram as cobranças.
A princípio em gestos; depois em dizeres.
E eu sempre com inúmeras justificativas:
"É necessário manter nossa independência.
Somos homens".
Chegou então àquela outra noite.
Deixei-te em frente à tua casa, na calçada.
Pelo retrovisor, eu via, entre lágrimas,
tua imagem cada vez mais distante.
Eu sabia... Não era o carro que se afastava.
No outro dia, me levantei bem cedo.
Bati em tua porta e, em silêncio, saímos.
Levei-te ao aeroporto.
Longe de ti, finalmente elas foram ditas: eu te amo.
Tarde, eu me conheci.

toque de prazer

olhei minha imagem no espelho.
na palma da mão distribuí gel.
com dois dedos, em suaves massagens,
transformei-o em espuma na face.
peguei a lâmina e deslizei no rosto.
suaves movimentos de ir e vir.
amaciei a pele, senti a suave textura.
espalhei loção, aspirei perfume.
cheiro bom. feliz, satisfeito.
eu me senti tão viril e tão meigo
na rotina de barbear-me naquela manhã.

she'óhl

ousei ingressar em lugares onde eu nunca deveria ir,
universo sombrio de infernais abismos,
onde o incerto e o tenebroso jazem vivos,
arrepio de morte em cada passo a seguir.

ousei penetrar lugares terríveis, asquerosos,
terra incógnita onde fantasmas, bruxas e vampiros
afrontam, covardes, os incautos ventureiros,
atacando-os de modo traiçoeiro, impiedosos.

ousei mergulhar, medroso e apavorado,
em lugares profundos de meu devir,
local insano dos arquétipos antigos, secretos,
aonde eu, cônscio, jamais me permitiria ir.

benedicta tu in milieribus

maria, mater dei,
ora pro nobis pecatoribus
nunc et in hora mortis nostrae.

valhei-me, ó virgem maria,
e, ao iniciar a necessária travessia,
guardai-me e protejei-me, vida minha.

e na angústia, envolvido no medo,
incapaz de atinar o hoje ou amanhã,
clamo teu certeiro amparo,
aguerrida esperança dos fracos.

e no instante derradeiro,
quando eu, só eu e ninguém mais,
quando o retroceder não mais existir,
defendei-me, mãe compadecida dos mortais.

transitivo ou intransitivo?

(todavia...)
eu amo
tu amaste
ele amava
nós amáramos
vós amareis
eles amariam

(se...)
elas amem
vós amásseis
nós amarmos
ela amar
tu amar
eu amar

(pois...)
eu amando
tu amando
ela amando
nós amando
vós amando
elas amando

(assim...)
eles amados
vós amados
nós amados
ele amado
tu amado
eu amado

toscanejar

noite fria qualquer de abril, fui concebido.
não sei se meu pai conheceu minha mãe
ou se minha mãe conheceu meu pai.
nem mesmo sei se foi amor ou usança.

só sei que assim passei a existir,
Deus até caprichou na figura
desenhou-me com traços assimétricos
bom de ver. originais e belos. estéticos.

o problema é que era frio, muito frio.
bem na metade do trabalho, ele cochilou.
e, meio acordado e meio dormindo, cabeceando,
ele se pôs a obrar o meu interior.

errou de cheio. bola na trave.
nem dentro, nem fora. não foi gol.
não escolheu a moral e os valores adequados,
criou-me fora do padrão, da normalidade.

numa manhã quente de janeiro, nasci.
outros tantos janeiros se passaram, mesmo primaveras,
eu crescendo robusto, alto, belo e formoso,
porém, maioria das vezes, não sabia pra que lado jogar.

foram-se tempos, enfrentei feras, rumei atalhos
rejeitei caminhos, feri, fui ferido, chorei. sorri.
e como Archimedes com sua lanterna,
vivi um eterno buscar não sei o quê ou quem.

em outra noite, a primeira do outono,
finalmente tornei-me flor e dei a luz a mim:
percebi e decidi: há alguém errado?
só pode ser o projetista, não eu!