dor e sofrimento

ossos torcidos, corpos feridos,
quiséramos mortos, em eterna procissão.
pra lá, pra cá, adiante.
marcados pelo vil metal.

balas, borracha, pimenta.
espectros do descaso,
tiro ao alvo.
humanidade sem rosto,
alquebrados, desprezados.
oito, dois por cento,
aprovação da barbárie.
quem sabe, não sabe;
interesses escusos.

ah! moleques envelhecidos,
que poluem os campos elísios
de velhas políticas e seus coronéis;
douto governador de nome estrangeiro,
jagunços contratados d@ capital
com dinheiro de judas, da bolsa comum.

amaldiçoam os impostos,
exploração dos construtores, industriais,
banqueiros, comerciários, liberais.
o mesmo dinheiro que comprará as armas
que dará à luz ao contrário
aos malditos frutos da mãe gentil.
puta que os pariu.

caminhar sem fim, iluminado pela estrela.

caminhei, caminhei, caminhei.
beirei vales, subi serras;
estradas, caminhos, trilhas,
depois mais estradas e estradas.

após estradas, mais picadas,
facão em punho,
e outras tantas estradas.

e depois?
beirei o meu coração,
cheguei ao teu coração,
flecha certeira, cupido.

sangramento, contentamento,
sempre mais estradas,
um rio ali, uma árvore acolá,
nem retiro, nem pousada.

passou-se vidas, vidas novas,
sempre mais estradas,
depois te ti, só resta estrada.

como uma brasa, marcaste meu coração

que bom te querer,
noite fria, enluarada,
sentindo cheiro de pinhão
assado na chapa, quentão.

ah! se te conhecer foi meu rumo,
mesmo longe, inacessível,
melhor é viver no tempo,
do que nunca ter te amado.

foram-se os abraços, envolvido,
foram-se as despedidas, separados,
foram-se as lágrima, saudades.

resta-me saber bem querido
e  teus beijos, ainda que memória,
tornam-me, ainda, tão feliz.

ilusão

me interpelas, na esperança
que eu me sinta culpado,
porque ainda estou nos teus sonhos.

eu? por que eu?
nada fiz, nem consultei
as senhoras capazes de alterar destinos.

apenas fui eu, somente eu,
e, por isso, mesmo por ti proibido,
continuei a te amar.

sem feitiços, sem preces,
nem mesmo evoquei os deuses,
simples assim. só isso.

e, talvez, se ousares corajoso,
entenderás. não sou eu em teus sonhos,
és tu presente ainda em mim.

a sete chaves, no meu coração.

para sonhar contigo,
navegando distante,
sem bagagens ou destino,
temos as estrelas.

que importa o  futuro
se tu, mesmo que instante,
tornaste-me eternidade?

ah como é bom arriscar,
sentir o vento às costas,
ludibriar destino,
sentir-me senhor de mim.

tu és minha regra,
ainda que navegante errante,
sei onde está meu porto seguro.

dane-se águas serenas,
quero medo dos abismos
do mergulhar profundo
em ti, em mim.

perfuma-te,
vista-te em óleos,
serei teu segredo.guardião.

minha alma confusa está; talvez seja essa a minha essência. se digo sim ou não, acredite; ou não.

sei. sei.
sei que nada sei.
minhas certezas esvoaçaram
nas brumas das incertezas.
fez-se noite,
mesmo se dia,
só restou-me a possibilidade.

tudo pode ser,
possibilidades infinitas.
pior então,
quanto mais possível,
mais incerto.
melhor seria
uma única certeza.

ah! como gostaria
de uma única resposta.
é isto,
ou aquilo,
não, não é.
negar, afirmar,
certeza.
no entanto,
pode ser,
pode não ser.
tudo pode,
nada pode.

e assim vou caminhando,
às apalpadelas,
buscando acertar,
mesmo no possível errar.
nada feito, nada pronto.
tudo a ser revelado, descoberto.

campos elíseos.

tombado, ousastes tornar-te
botão em meu jardim.
como desafias, indómil guerreiro,
tornar-te destino em terras
em que a vez, sempre,
a altivos e fortes pertence?
como podes ser promessa
de um dia rosa,
curvado ao chão,
quebrado ao meio?

não podes.
não deves.
ficas somente pra que outros temam
diante de tão eloquente e tão generoso.
és-me pra sempre devedor.

como ousas?
destruir o seguro, inflamar de sol,
os que destinados às sombras?

este jardim tem dono.
este chão não te pertence.
vai ser luz, galho quebrado,
em outro lugar.

desatino.

definimos metas,
criamos regras,
apontamos direções.

parece-nos que o destino,
pesado, medido, calculado,
preso está em nossas mãos.

e assim vivemos,
engano,
deixamos de viver.

sonhos, poesia, deslumbramento,
a surpresa não tem lugar,
desencantamento.

nada novidade,
tudo causalidade,
sem erros, desacerto.

no entanto, apesar das densas nuvens,
há estrelas, luas, planetas e astros. além.
feliz ano velho.

calendas do ano

primeiro dia,
dia primeiro.
janeiro, março, dezembro.

sempre é dia de recomeçar,
anunciar calendas,
calendário,
dívidas pagas.

dívida social,
dívida de gênero;
tantas dívidas
a espera do jubileu.

faça novo cada dia,
não importa data,
importa nascer de novo.

dia feliz de vinte e cinco horas

noiteceu. noite brilhou
um piscar ali, outro acolá;
pirilampo, vagalume.
não sei bem distinguir.

cheiro de roça, milho verde;
o calor da noite de natal.
pisca-pisca natural,
esperando a visita do menino Deus.

memória de tempos idos,
tempo em que o papai noéis
ainda não existiam.
nem compras, nem perus ou pernil.

meia-noite era do galo,
sino batia só pros grandões,
nós pequeninos em sono profundo,
esperando o madrugar do dia-santo.

no presépio, com cheiro de pinheiro,
o prato vazio, o burrinho passou,
com ele o Deus menino
algo, muito simples, nos deixou..

roupa nova, feita em casa,
o sino tocava agora pra nós,
chocolate pra onze, quem se importava,
galinha na mesa, dia feliz, nasceu Jesus.

sentimentos

colhi o primeiro raio de sol,
coloquei, com carinho e prazer,
num vaso de cristal.

primeiro brilhou o vaso;
depois, a casa;
finalmente, a vida.

e se por acaso, além do abismo, o inesperado esperado me estiver esperando?

diga-me.
quando foi que cruzastes o rio
e me deixastes, despercebido,
continuar a remar para o vazio?

eis-me, agora, instante decisivo,
avistando logo, logo,
o franjear do abismo.

foi descuido meu
ou destino do tempo
que apartamos um do outro
foi mesmo necessário navegar solitário?

se é que possível é,
depois de tantos segredos e sonhos,
partilhada alma,
mesmo que em dista oposta,
ser errante só no buscar estrelas...

não, não remo sozinho,
ainda que somente eu,
desguarnecido do ombro e mãos,
sempre vais comigo.

proíbam.

proíbam os canteiros de flores
em estufas, em enormes viveiros.
prontas pra serem talhadas, vendidas.
flores não são mercadorias.

proíbam o comércio de rosas,
destinadas a murcharem nos vasos
flores são flores,
devem ser amadas.
admiradas, jamais arrancadas.

estarei para sempre

a ampla janela aberta
deu boas vindas à brisa.
calor amenizado, sensação boa.
junto com o ar,  o perfume da dama da noite
e o balançar do jambeiro amarelando o chão.
sabiás cantando... anoiteceu.
ascendi de estrelas o galho seco,
barba de velho, orquídeas e bromélias.
e entre as palhas douradas,
ajeitei o divino menino.
mãe, pastores e reis.
até mesmo o pai, o carpinteiro.
boi, ovelhas, o burrinho.
e a alma sonhou extasiada.
as azuis eram as minhas preferidas,
mas não desprezei o piscar das verdes,
das vermelhas, das brancas e amarelas.
gozoso, terceiro mistério.
senti-me francisco, o de assis ou de criciúma.
tudo lindo, muita paz. enanto.
e assim foi a minha última noite de natal.

vale a pena, a alma não é pequena.

tão rápido.
éramos meninos,
tornamo-nos adolescentes e rapazes.
adultos, chegamos  madurez,
após a porta de cristal vislumbramos
a bengala, a rede, o jardim.

tão lento.
a bicicleta.
o lápis e o caderno.
a rosa roubada. a balada;
o escritório e o berço. o terço.
noites e dias, dias e noites.
gerações, existência em aprender.

tudo muda, tudo permanece.
no olhar do adulto, o brilho do menino.
nos primeiros passos, as dificuldades das escadas.
na descoberta de amores, as perdas em flores.
viver é uma eterna aventura.

e se colherem todas as rosas do meu jardim?

sinto o tremor do rosto
e o queimor das mãos,
retorcidos...
nuca gélida, suor.

temer o medo é morrer,
vencer o medo é coragem.

jaz em sepulcro insepulto
quem busca a paz da omissão;
guerreiro valente quem
escala, mesmo covarde,
os píncaros  do estar com.

mãos embalando o sujo cobertor,
filha do descaso, abraço protetor.
roubaram-te o corpo, mercado,
resta-te sonhos, ainda que incompreensíveis.

sim vou falar de flores, montanhas e sol.
novela das seis, das sete e das nove.
afinal se rocinha pacificada,
que importa hevéltia e luz?

sinta o perfume da rosa...




quem é essa mulher?

quem é essa mulher,
vestida de lua, rompendo a noite,
correndo ao encontro do amado,
deixando rastros de perfume no caminho?

... é Maria, a mãe de Jesus...
... é Maria, a senhora da luz.

quem é essa mulher,
vestida da estrela, tingindo os céus,
desfraldando as bandeiras,
ondulando com seus cabelos o caminho?

... é Maria, a mãe de Jesus...
... é Maria, a senhora da luz.

quem essa mulher,
vestida de sol, adiantando a aurora,
apressada como um raio
encantando ritmado com seu corpo o caminho?

... é Maria, a mãe de Jesus...
... é Maria, a senhora da luz.

talvez sim. talvez não.
pode ser maria, a desvairada.
ou, quem sabe, maria, a apaixonada.

do lugar do sal ao sol sem ocaso

às vezes és a santa,
outras tantas, prostituta.
dizei-me, pois, ó mulher,
em teu caminho, que havia?

endemoniada, deixastes casa, mar, redes.
apaixonada, seguistes teu homem, divino.
desvairada, ouvistes de seu lábios, encantos.
enamorada, chorastes o corpo matado.

dizei-me, pois, ó amada,
 qual é agora teu destino?
... amante no monte elevado
... pedra no chão atirada.


lençóis, aos pés, desfeitos...
o leito frio do amado...
manhã, perfume de nardo,
caminhas sem rumo, encontro.


é amor que supera a morte,
vida teimosa na vida
e o anjo da cor do sol
anuncia  novo arrebol

dizei-me, pois, ó maria,
em magdala o que havia?
anjos, rubuni, jardim,
apóstola vidente do rei.

semeador

e se, de repente, num instante de lucidez
fôssemos tentado pela insensatez
e nos deixássemos, superado o medo,
contra toda maledicência,
vencer pela temeridade
e, loucura das loucuras,
saíssemos a semear flores?


a viagem

em teus olhos mergulhei,
penetrei a profundeza da alma;
invadi recantos, escalei topos,
desci ladeiras. cheguei ao destino

em teus olhos enxerguei-me
no labirinto do mistério,
da admiração e incertezas.
na tua transparência me vi.

em teus olhos fui acolhido
e embalado em ninar ritmado;
acalentado, me fortaleci.
fortalecido, te amei.

encontrei em ti
o que estava em mim.

por ti suspiro; respiro cadências, lembranças

olho o relógio,da vida.
não o que conta horas.
resta-me  pouco,
tão pouco, pouco apenas,
do ínfimo eterno tempo
pra dizer-te o meu imenso,
etéreo e transbordante amor.
por ti, em ti, para ti,
beleza infinita,
ânsia, espera e causa
de meu bem estar, viver.

por ti partem meus caminhos, certezas
em ti resultam minhas jornadas, quem sabe?,
pra ti meus projetos, metas, chegada.
basta-me ter a ti,
ainda que lembranças,
saudosa, passageira, volátil,
para encher-me de pleno existir.
embalado, adormeço.

foi-se a noite, a'margura,
e com ela o inseguro medo, dádiva;
um raio entre nuvens, vencedor.
tudo tão muito, tão menos,
mais do que possível,
em simples coisas, imagem,
pra n'alma brilhar:

negue-me teu corpo,
negue-me tua presença,
negue-me até história.
jamais, tua alma.
sim, a'sim, vale as penas.

amanhecer em esperança

esperando esperei a aurora,
chegou a noite,
nuvens e relâmpagos.

esperando esperei o descanso,
chegou o cansaço,
suor e calor.

esperando esperei você,
chegou tua ausência,
solidão e vazio.

esperando esperei um sinal.
chegou a estrela,
anúncio da aurora.

flores são flores

falarei de flores,
assim não receio,
num instante a toa,
em questionar
teu tranquilo
e letal sono.

flores são flores,
perfumadas, coloridas.
umas destinadas ao amor,
outras ao culto,
há também as tolhidas,
despedidas eternas.

flores são flores,
belas,
rústicas,
variadas,
únicas,
comercializadas,
dos campos.

flores sãao flores.
cabe-nos
admirá-las,
roubá-las,
ignorá-las,
desprezá-las, nunca.

mas, cuidado,
nem tudo são flores.

campos elíseos

ouviram do ipiranga,
são joão, marginal.
de infantes brados,
ouça, já morrente, mãe gentil.

povo heroico? fúlgido.salve.salve.
seio estéril, de sonhos.
vale o penhor? em teu seio, liberdade.
desesperança de não promessas!

salve, salve,
em bosques secos,
terrão sem amores.

esperando amanhecer,
envolveu-me o anoitecer.
tudo igual na helvétia
esquina cleveland.

terra adorada, idolatrada.
lábaro estrelado
de sant`apagada luz,
na cecília calada, efigênia.

Ó desafiadora morte,
por que tolhes, cegada entre mil,
filhos teus, florão da américa?



intransponível

maior distância é o medo.
medo de ser meu destino,
medo de unir destinos.

maior distância é o medo.

irrompe movimentos,
impede proximidades,
afasta espaços.

medo de ser teu,
medo de ter você.
maior distância é o medo.

acolá da curva do rio

quantos segredos,
quantos caminhos,
quantas voltas.
esquecido de mim mesmo,
tornei-me solidão.

astros, estrelas, luzes;
tudo aponta,
destino inatingível.
onde estás?
contigo perdi o rumo de mim.

e, agora, lembranças teimosas
de lugares,
momentos vividos,
mãos entrelaçadas.
por quê?
não sei. alguém saberia?

o rio cortou pedras,
chiou, dobrou curva,
eu fiquei, sem saber,
na outra margem.
longe do mar.

pra sempre

cinco ou seis anos,
não lembro bem a idade.
fim do terço e ladainha
velas apagadas, sala na penumbra,
eu, meio-acordado, meio-dormindo....
algo diferente, emoção?!
a lua em luz, prateou o vulto.
tão bela, tão meiga e tão suave.
vestida em branco, bordadura de ouro.
olhar negro, terno, tranquilo.
mãos estendidas, oferta.
aos pés, duas ou três pombas.
não recordo bem.
palavras? para quê?
desnecessárias.
ela nada dizia;
eu nada falava.
horas em minutos,
minutos em horas.
êxtase eterno, segundos.
outro dia, partiu.
num mar de velas e lenços brancos.
despedia-se a imagem peregrina.
minha alma infantil
- existe idade pra alma?-
imagem para sempre.
seculo seculorum. amém.

no turno da noite

tomei-me de coragem e me fiz noite.
a claridão tomou espaço em mim.
suspirei profundamente, cheio de atitude,
ignorei o tremor da alma,
mergulhei nos mistérios, ainda que com dores.

fui tirando as verdades, uma por uma,
às vezes lentamente; outras, de vereda,
golpe certeiro, ainda que cuidadoso.
desnudei-me e me deixei revelar
nos sonhos e medos, nas certezas e ilusões.

amanhecido, adormeci.
partado de mim mesmo,
vivo o sol na espera doutra noite.

de rebanhos, de trigais, de multidões

teu nome, tua missão:
dádiva de baal,
às portas de roma, conquistador.

das ovelhas abandonadas, pastor;
de multidões cansadas, compaixão;
da messe sem obreiros, trabalhador.

o segredo? remédio infalível:
rogai  sem cessar.
pai dos sem pais, pobre entre os pobres.

di francia, di cartago, della sicilia,
- que importa, zeloso poeta?-
da tua amada messina,
és agora, aníbal, embaixador.

fique comigo; só esta noite.

então eu digo,
por favor, amor,
fique comigo.
só esta noite.
não mais;
eu te prometo.
deixe-me beijar teus olhos,
explorar teu corpo,
respirar teu perfume.
não se vá ainda,
se faz cedo.
tenho tanto para te amar
e pouco para contigo estar .
não se vá ainda,
é só o que te peço agora;
depois sim,
sigamos nossos destinos
tu no amanhecer, frescor;
eu, entardecer, saudade.

desconfie de mim, mesmo tendo certeza

se eu disser:
vale a pena.
desconfie.
pouco sei,
mesmo dizendo, sei.

seu eu disser:
não corra riscos.
desconfie.
menos sei ainda
daquilo que não sei.

se eu disser:
pare.
desconfie.
pouco sei
daquilo que não sei.

se eu disser:
siga.
desconfie.
menos sei ainda
mesmo dizendo, sei.

contra todo o sufixo,

rafael, joel, miguel.
mais el diablo
bem menos go´el.

para além do rio

marrento,
cansado o barco avançava.
águas escuras, profundas.
quase na proa a mulher,
silêncio inexplicável,
nem morto, nem vivo.
indiferença.
não importa o calor,
nem os respingos fétidos.
rede ao lado, cheirando peixes;
ronco de motor, sempre o mesmo.
a alma cortada em duas,
ou em três... talvez sem alma.
o cabelo esvoaçava, sem brilho.
falei boa noite,
só o motor de se ouviu.
aquietei-me.
indiferença sem rumo.
viajei longe, além das margens.
atravessia noturna,
mesmo que sol se pondo.
apercebi então o ritmo dos braços.
corpo teso,
só os braços em balanceamento.
tão discretos, tão lentos.
era uma cantiga de ninar?
tremi mais ainda.
nos trapos, outro trapo
bem diferenciado, amontoado.
aprofundei o olhar, querendo ver.
pedra, pau, coisa ou gente?
morto? vivo?
eram lágrimas ou respingos?
estranhei a estrela riscando o céu,
desci no porto a espera do milagre.
o barco se foi.
a mulher?
inerte continuou sua travessia.
esmaeceu, permanece em mim.

pausa para reflexão

ajude a divulgar:
entendendo que os crimes 
contras os moradores em situação de rua 
na cidade de São Paulo 
não são casos isolados, 
exigimos que as autoridades do legislativo
investiguem e coíbam estes crimes. 
A impunidade é a causa maior desta violência. 
Não à impunidade! 
umSim à condenação dos responsáveis!

carta a um amig@

amig@,
sei que temes a verdade.
sei que não amas a mentira.
no entanto,
omitir é também enganar.
muitas vezes, ocultamos,
por medo, nossa verdade.
o que escondemos,
na realidade,
é o pavor de nos vermos
como somos e que nos tornamos.
então, preferimos mentir.
não para o outro,
para nós mesmos.
pense nisto;
e enfrente o fatasma.

rua helvétia esquina cleveland, próximo ao hotel belo horizonte

belos são os pés
de carroceiros insustentáveis,
dia e noite libertando
a cidade do lixo.
belas são as mãos
do morador de rua
que ajeita o papelão
para o sono menos frio
de seu companheiro.
belo o sorriso
de bocas nuas
a acolher o diverso.
belo o rosto enrugado
marcados precoces
da guerra de viver.
ah cidade que matas
quem te embeleza,
cruel a queimar
teus deserdados heróis.

reminiscência

o frio anunciou
inverno à vista.
senti, ainda, que miragem
o perfume do pinhão
assado na chapa,
tostado em carvão.
saudade.
do fogão?
do minuano?
da companhia?
não sei.
... importa saber?

pois é...

sei que não me compreendes,
até me repreendes.
é um direito teu.
mas quem disse que é necessário
o teu aval para eu ser?
aliás, não depende de pessoa alguma,
por mais significativa que ela seja,
o meu agir e mover.
seduzível, só as multidões...

tempus fugit

onde  estavas tu
quando precisei de colo,
quando a mão amiga a pousar nos ombros
era tão necessária?
sei... tinhas coisas mais importantes,
mais urgentes e mais necessárias.
afinal, quem sou eu
 no meio de milhões
que perambulam nesta metrópole
num constante ir e vir
fugindo da insignificante existência.
sou um a mais.
um grão de areia,
o máximo uma estrela,
ponto embranquiçado da via lactea.
demais pretensão
acreditar que eu
possa existir
num lugar especial do teu coração.
cuidado, apenas, eu te digo.
o amanhã está mais próximo
do que esperas
e se o tempo que se chama hoje
não for bem vivido
naquilo que é essência,
o futuro talvez cobre sua paga.
então poderá faltar os ombros
onde pousar a mão
e, ausente o corpo,
o colo vazio
desesperadamente pronto
para o aconchego e descanso
gritará mudo para ouvidos surdos.

amargurado? não. só cansado.

tudo poderia ser diferente,
quem sabe não estaria
eu hoje contando histórias
para meus netos dormires,
balançando-os suavemente
sobre meus pés.
poderia, por que não?,
falando de rosas, perfumes e matas,
fazendo multidões sonharem num soneto,
dizendo a meus filhos "a vida vale a pena",
"estudem, há futuro".
no entanto, preferi o caminho das pedras
das constantes lutas e lutar com leões.
desafiado, engravidei-me de montanhas
para dar luz cada dia
a um simples seixo de rio.
não me queixo da vida,
trilho o meu caminho,
sem olhar pra trás
ou desesperar pelo não saber
do que há além da curva a frente.
só isso, nada mais.
apenas
choro os pactos não cumpridos e
as indiferenças cínicas e constantes
dos que desprezam o valor
da palavra uma vez pronunciada.

da grécia à roma, o norte sempre agoniza

abri o jornal,
repleto de sangue,
folheei ávido
as páginas do império.
como é enganosa
a vingança
traspassada de justiça.

a vida é bela

diga-me,
que culpa tenho eu
se a maioria prefere
viver enganada.
então,
nas palavras prazerosas
digo inverdades que não creio.
e assim iludo
corações anestesiados
pela doce sensação
da mentira.
a verdade,
maior vezes, dói
aos alienados da vida.

desilusão

cansado de mim mesmo,
encastelei-me no silêncio
e pedi água.

tem vezes que o silêncio
vale realmente ouro.
outras, nada vale.

senhor, senhor,
porque me destes sensibilidade
para perceber do outro a dor
se nada posso fazer?

imagem

espelho, ó espelho meu...
os cabelos ondulados,
loiros e finos,
brilhantes até.
refletido,
não pude negar a mim mesmo
a verdade das rugas;
apesar dos cosméticos!

cruzando o cabo da boa esperança

pois é...
nós não revolucionamos o mundo.
transformamos, mas não mudamos.
talvez para pior...
quanta tirania,
quanta destruição,
quanta fome,
quanta pobreza.

desabafo?
decepção?
por que não?

com certeza
não era isto que sonhávamos
entregar para nossos netos.

geleiras derretidas,
águas mortas,
campos secos,
céu sem estrelas,
riquezas acumuladas.
tudo em toques de teclados.

adeus

sem lenços,
sem lágrimas,
sem abraços.

só as mães são felizes.

sheol

e se o escuro for uma parede?
e se eu der o passo e descobrir o poço?
e se o corredor for infinito
e o inferno realmente existir?
e no escuro ouvir o rugido do leão?
e se a cura da aids, do cancer,
ou a vacina da dengue,
não estiver assim a mão?
e a jornada é minha,
só minha.
se possível, dê-me a mão.

moros

num repente,
olhei em frente
e percebi
que não sabia.
trêmulo,
toquei o vazio.
olhei para trás
e contei os degraus,
poucos,
dezenas de milhares.
todos estavam ai:
amores, pais, mestres,
companheiros, amantes,
adversários, inimigos.
vitórias e derrotas,
ilusões, projetos, realizações.
um filme, matinê.
tão rápido quanto um flash,
intenso quanto o big bang.
não havia curva
e nem volta.
nada a me apegar,
nem o colo da mãe,
nem o bastão do pai.
nada de nada.
só memórias.
solitário de mim e
ofuscado pela luz,
dei o passo adiante.