sem palavras

A cicatriz da alma, testemunha a travessia.
Naquela noite, era o momento de dar-se o encontro.
Ao te ver, algo gritou em mim.
Quando me dei, estava sentado frente a ti e lancei-me no jogo da sedução.
Planejava momentos de trocas, sem envolvimento.
Ledo engano.
Vieram as viagens, as férias, o natal e as noites na praia.
"Amizade apenas", afirmava eu aos outros.
Envolvido, adiava aquelas três palavras.
Mas o tempo exige a paga dos apaixonados.
Com ele vieram as cobranças.
A princípio em gestos; depois em dizeres.
E eu sempre com inúmeras justificativas:
"É necessário manter nossa independência.
Somos homens".
Chegou então àquela outra noite.
Deixei-te em frente à tua casa, na calçada.
Pelo retrovisor, eu via, entre lágrimas,
tua imagem cada vez mais distante.
Eu sabia... Não era o carro que se afastava.
No outro dia, me levantei bem cedo.
Bati em tua porta e, em silêncio, saímos.
Levei-te ao aeroporto.
Longe de ti, finalmente elas foram ditas: eu te amo.
Tarde, eu me conheci.

3 comentários:

Marli disse...

teus textos exalam o perfume do amor neste querer intenso...
"sem palavras" mas disse muito, para dizer a verdade sempre nos falta palavras em muitas situações, quando estamos felizes, tristes, quando sonhamos ou quando choramos ,até um olhar diz palavras mudas e não temos coragem de pronunciá-las. Maravilhoso!
“Amor é quando as diferenças não são mais capazes de separar.” J. de Bourbon Busset.
beijus amigo
parabéns...

onzepalavras.com disse...

É sempre de longe que são ditas as mais profundas verdades. De longe de tudo, tão perto da gente. Demoramos a nos conhecer.

Maravilhoso texto!

margaridaaovento disse...

A cicatriz da alma é indelevel! E é sempre tarde que nos conhecemos! Adorei o texto!
abs,
Daisy

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