6. fênix

Ternura, paixão, causa de contradição.
A alma de a está perturbada.
Lembranças de seus corpos unidos, carne una;
das mãos ligadas , entrelaçadas.
Laço em aliança.
Passeio de carícias.
Toques viris, profundos.
Agora,
insonso os cheiros de suor;
surdos os olhares amorosos;
mudos os ouvidos de palavras benditas;
cegos os toques e os beijos;
inodoro os sabores do corpo.
Vivo somente os desejos.
a é saudade,
mas, também, consolo.
Para quem ama
não existe o passou,
o amado sempre será o seu lar.
a vive em a.
ad æternum

5.3. tríduo: sábado de aleluia.

coisa-boa
Naquela madrugada,
tendo por testemunha o silêncio,
a muito chorou.
Foi compulsivo.
Em seus braços, com carinho, Ael.
No pranto, a lançar preciosa semente,
depositou-o na terra.
Acendeu velas.
Iluminou escuridão.
Ajeitou nas mãos feridas a viola.
Aos pés, um vaso de amor-perfeito.
Talhou em pedra, pra sempre:
a-ama-a
eterno, porque dura.
Deixou a câmara,
lençóis envoltos, revoltos,
pedra rolada.
Dourando manacá da serra, o sol nascia.

5.2. tríduo: sexta-feira maior

coisa-ruim
Testemunhas, homens corretíssimos,
confirmaram:
Ele brincou.
Ele curou.
Ele alimentou.
Ele cantou.
Ele embebedou.
Ele dançou.
Ele tocou.
Ele encantou.
Ele fez travessia.
Amante-ama-amado!
Vozes, homens e mulheres piedosos,
em furor:
transgrediu, humanamente divinizou!
Vergonha.
Escândalo.
Não merece viver.
Matem-no.
Para sempre, amém!
Tribunale
Ela, senhora de si,
espada e balança nas mãos,
cegueira, togada.
Veredictum:
Justifique-se assassinato, roubo, mentira, idolatria.
Amor bem dado, isto não!
Sententia est:
Seja esquecido da face da terra
e seu corpo insepulto, exposto.
Em praças, palácios, tribunais, bancos e igrejas.
Corpo despido, ensine sempre:
amar diferente não tem perdão.
a-ama-a
etéreo, não dure.
Servatis servandis, lex lata.
De gestos infinitos,
æl, homem orgulhoso,
levantou a cabeça.
Teve compaixão.
Ecce homo!

5.1. tríduo: quinta-feira santa

do mais belo cantares.
amante:
Que ele me beije com os beijos de sua boca!
São melhores que o vinho teus amores,
como a fragância dos teus refinados perfumes.
Como perfume derramado é teu nome,
por issso as adolescentes enamoram-se de ti.
Mostra-me, ó amor de minha alma,
onde pastoreias,
onde repousas ao meio-dia,
para que eu não comece a vaguear
atrás de teus companheiros.
amante:
O inverno passou,
as chuvas cessaram e já se foram.
Apareceram as flores no campo,
chegou o tempo da poda,
a rola já faz ouvir seu canto em nossa terra.
A figueira produz seus primeiros figos,
soltam perfumes as vinhas em flor.
Levanta-te, amor, beleza minha, e vem!
Tua voz é suave
e o teu rosto é lindo!
a-a-a:
Grava-me como um selo em teu coração,
como um sinete, sobre o teu braço!
Porque o amor é forte como a morte
e é cruel, como o Abismo, o ciúme:
suas chamas são chamas de fogo,
labaredas divinas.
Águas torrenciais não puderam extinguir o amor,
nem rios poderão afogá-lo.
Se alguém oferecesse todas as riquezas
para comprar o amor,
com total desprezo o tratariam.

4.7. sétimo sinal: toque de vida

sétima-feira
Viola descansada.
Amaram-se.
Corpo nu corpo,
língua ágil molhada,
mãos em vaivéns,
arrepios.
Fundiram-se em tensão,
sexo forte, arrebatamento,
enlevo, fruídos em êxtase,
impudor.
Depois, balanço da rede,
luar, ressonar, sonhar.
Mãos nas mãos,
braços em abraços, ternura.
Tudo calmo.
Unidos para sempre,
invocando o poeta:
infinito, que dure.
E Deus, sorrindo prazeroso,
abençoou e santificou o sétimo dia, bem-criados.

4.6. sexto sinal: a cega que vê

sexta-feira
Pós travessia,
Anael, jeitosa, tocou Emanuel.
Mãos nos lábios, nariz e olhos.
Parou aí.
Avançou rosto, queixo e pescoço,
pomo de adão, proibido.
Sentiu espinhos rentes, a fazer .
Aspirou o perfume, cheiro dele, da noite.
Saboreou em tato e visão,
ouviu em olfato, intuição.
Suspirou geografia de corpo, alma.
Gestos amorosos, afetuosos, amigo.
Sentou-se.
Contou sua vida em ladainha curativa.
Amores vividos, visões sonhadas,
Esperas de felicidade. Enganações.
Narrou sem emoção, medo ou raiva,
a angústia, o temor, a aids.
Pediu então que dedilhasse a viola,
e envolvida no som da vida, flutuou.
Subiu píncaros,
desceu penhascos,
bebeu em fontes,
dormiu em prados verdes, floridos.
Amou o que vivera,
odiou o que devia.
desejou, viveria.
Brilhou assim os olhos de Anael.
Diamantes negros, estrelas reluziam.
Via láctea.
Estremeceu.
Sentiu-o calado, no canto escuro, Azazel.
Tão distante, fazendo-se perto,
o irmão de Salomé, assoprou fogo,
aqueceu noite e, mesmo sem costume,
seus lábios, no som da viola,
sussurrou em querer, prosas e poesias.
Emanuel, magia em tom sedutor, percebia.
Era muito bom.
Feliz, travesso, æl sorria.

4.5. quinto sinal: caminho das águas

quinta-feira
Emanuel sabia.
Sabiá da serra assubia,
ressonou a hora, chegou o tempo.
Emanuel sempre soube,
amizade se fazia espera, outra margem.
Impossível o margeara,
preciso seja nova travessia.
Emanuel sabido.
Água que desce serena
é a mesma da pedra dura;
é a que esconde profundidade, tempestade, remanso.
Sim, Emanuel, antes de tudo, intuía.
Conquista vem da luta
do fazer e o não fazer,
do conhecer e o desconhecer,
do querer e o não querer.
Cume, só ao vencedor.
Emanuel sabe ou saberia.
Tudo não conhecia
ou muito menos do que queria.
Foi preciso o vertiginoso empurrão;
æl, na hesitação sempre surgia.
E assim, se fez o quinto dia,
Emanuel pairando, travessou águas,
ignorado conquistado. Bom, é bom.

4.4. quarto sinal: comida multiplicada

quarta-feira
Emanuel riu-se no quarto dia,
foi na tomada de terra pelos sem-nada.
Bandeiras desfraldadas, cor sangue.
Alicates e foices em desfazer constantes,
cercas em farpas, rompidas e torcidas.
Enxada e facão, abrindo o chão,
território tomado, dividido e repartido.
Espigas arrancadas e debulhadas.
Jornais insistentes em dizer não. Ladrão!
Grãos moídos, misturados e assados.
Fogueira no chão.
Pão de fubá em folha de bananeira.
Acontece assim o milagre da multiplicação.
Tudo em fartura, pois é melhor que sobre.
E houve um sol e uma lua. Tarde e amanhecer.
Crianças dormiram encantadas, mesmo nuas.
E Emanuel viu... era bom.

4.3. terceiro sinal: cura da paralizada

terça-feira
Iara fora sempre gentil.
Menina moça quase feliz.
Alimentava-se de pitangas e gabirobas,
de araras e jenipapo, vestia-se faceira,
aquenta-se com guerreiros e caçadores.
Era de amores, bebia cauim.
Via-em-sonhos, mundo-que-viria:
comida abundante, sem labor em plantação.
Caça e bebida generosas, inebriantes.
Velhas e velhos em danças amorosas .
Terra-sem-males. Promissão.
Mas chegou de além-mar o estrangeiro,
ambicioso, diferente, não cavalheiro,
rude nos gestos e macio nas falas,
cruz e espadas em fé e sangue.
Deflorou-a sem ternura nem dó sem piedade.
Ela, impotente, submeteu-se ao destino.
Gerou-lhe filhos e filhas, deu-lhes cuidados.
Amamentou em seus seios, negros escravos,
Em suas pernas, consolou os seus ais em desterro.
Pariu prole híbrida, mestiços e senhores.
Aprendeu árabe, polaco, judeu.
Entregou-se a inglês, japonês, americano.
Bem traçada, mal falada, não amada.
Chegou exaurida a idade plena.
Mulher adulta, cordial e infeliz.
Não recordo bem, foram anos de flagelo
Talvez 64, 68 ou 70.
Mas com certeza até os noventa.
Regime inclemente.
Galhos secos, torcidos, quebrados.
Poetas tolhidos, lábios sem canções.
Insepultos nos campos de batalhas.
Botas manchadas, vermelhas.
Tentaram enganar o desengano:
Vênus enfeitada de prata foi convocada,
diários escritos oficiais em folhas,
anjo trofeu dourado com nome francês.
Em vez de prodígios, somente ilusão.
Emanuel e sua turma visitaram Iara.
Insonsa, temperou suculento jantar,
e ao abrir a janela, perfumou-se, dama da noite.
Choveu a chuva. Aconteceu os botões.
Senhora das águas, outra vez graciosa,
quis em si conjugar o dar, palavra sagrada.
Amorosa, lavou e lustrou as botas,
Derreteu, faminta, o ídolo de ouro,
trocou o canal, sonhando, virou a página.
Um anjo de quatro dedos dedilhava a viola.
Emputalhados, rangiam ferozes caninos.
Emanuel riu, era bom. Terceiro dia.

4.2. segundo sinal: a cura

segunda-feira
Emanuel sentiu Gabriel.
Andava de um lado para outro.
Tudo irritava. Nada prendia.
Primeiro no futebol.
Duro nas entradas.
Ira, coação, violência,
ódio através dos lances.
Nada bom, tudo ruindade.
Depois, era o pós jogo.
Bebida mais que o costume.
A brincadeira, folguedos entre amigos,
tornou-se grande agonia.
Estava chato o Gabriel.
Deixou de sair com os seus,
Salomé, mulher de paz, fazia de conta que nada entendia.
Foi no dia da partida,
o encontro entre os dois.
Só os dois. Ninguém mais.
Silêncio de Gabriel.
Emanuel mais do que próximo.
Mais silêncio, horas... meses em dia.
E num repente, com o pranto,
explodiu tudo o que o oprimia.
Impotente... falou da mãe.
Envergonhado, do seu grande amor.
Conversa de homem pra homem,
mais amigos, mais que irmãos.
O papo foi longo, uma vida.
Emanuel o tocava,
como ninguém o faria.
E com o contar das palavras,
desabrochar, toques, magia.
Viril ele se descobria.
E houve uma tarde e uma manhã:
criou-se o segundo dia.
Nove meses depois, teve volta de Emanuel.
Batismo de Judá, Benjamim:
os gêmeos de Salomé,
de uma enorme prole que viria.

4.1. primeiro sinal: água em vinho

primeira-feira
Houve um casório.
Como a maioria dos casamentos,
poucos na igreja, muitos na festa.
Emanuel, acompanhado de sua turma, também foi.
Maria, sua mãe, agitada como sempre.
De imediato, pensou: ela não perde uma.
Lá pelas tantas faltou bebida.
Maria: "não tem mais o que beber".
Ele só levanta os ombros, como a dizer não tenho nada com isso.
Maria deu as costas, confiante, com um sorrisinho enigmático.
Ela conhecia o filho. Era o seu eterno æl.
Quando criança, ele gostava de brincar de mágico.
Um dia, depois de ler uma passagem da bíblia,
resolvera transformar água em vinho.
Isto na festa de aniversário da Anael.
Colocou a capa, pronunciou as palavras mágicas
e, pronto, a água transformara-se em vinho.
Tá certo que o tang de uva, no fundo da jarra, ajudou.
Mas que ele deu um show, deu.
Não seria diferente.
Ela sabia.
Emanuel, a princípio contrariado,
todo filho fica assim quando a mãe interfere,
começou a remoer com seus botões.
Graças a Deus, vinho Sangue de Boi, ninguém merece.
Pegou uma panela, bem grande.
Depois uns limões, açúcar e gelo.
E também pinga. Sempre tem.
Para completar, sua viola.
Criou-se assim o céu e a terra.
Foi uma festa e tanto.
O casamento de Gabriel com Salomé, irmã de Azazel,
estava salvo.
Foi assim o primeiro dia.

3.3. logia curtíssima: em nome do Espírito Santo

a-ama-a

3.2. logias breves: em nome do Filho

Primeira palavra. No lugar dos fornos e câmaras de gás, em Guantânamo ou no antigo prédio do Dops, sejam cultivados jardins. Neles, ao fim da tarde, todo homem e mulher, tem o direito, que deve ser respeitado, de proclamar Shema Israel! Escuta ó Israel, Ad-nai nosso D-us é Um!
Segunda palavra. O diabo era. Extintos os bancos, sistemas financeiros e lucro. D-us foi é será o único absoluto.
Terceira palavra. Em nome de D-us, fica abolida qualquer perversidade contra negro, pobre, árabe, gay, sejam homens ou mulheres.
Quarta palavra. Todo dia será dominus dei. Crianças que as mães amamentam podem elevar, em praça pública, o perfeito louvor. Adultos vivem arte e poesia, até aprenderem.
Quinta palavra. Todos tem direitos a amar amando, a brincar brincando, a orar orando e a sonhar sonhando. Com ou sem dentes.
Sexta palavra. Fica abolida a morte, principalmente o genocídio e o assassinato. Crianças morrerão depois de 120 anos e se, por acaso, acontecer antes é a notícia principal. É extinta as divisões de classes em todos os cemitérios.
Sétima palavra. O estupro e outras violências sexuais é abortada, principalmente contra crianças. Ninguém é envergonhado por causa da aids. Meninos e meninas podem encher as camisinhas e brincar.
Oitava palavra. É declarado os direitos da mãe terra, dos animais, das plantas, de todas as criaturas vivas e de todos os seres. Estes direitos devem ser respeitados e protegidos.
Nona palavra. Todo testemunho é verdadeiro, se dito. Fica liberado o bem falar da sogra, da vizinha e da mãe do juiz.
Décima palavra. Direito fundamental é a partilha de bens e dons. As cercas e muros inexistem. Toda criatura, animada ou não, pode ir, vir e rir, beber, comer e transar, cantar, dançar e pintar, rezar, despachar e cultuar ancestrais. Fica decretada, ad eternum, a terra-sem-males.

3.1. logia longa: em nome do Pai

Minha mãe não é adjetivo nem substantivo é nome
Meu pai é um segundo nome
Todos os nomes significarão
Emanuel D-us é conosco
Gabriel D-us enviou
Azazel "bode emissário" a ser mandado embora Um espírito maligno que controla as regiões desérticas
Maria mulher soberana
Azaquiel água universal
Iahweh eu sou aquele que é
José D-us acrescenta
Anael anjo que governa outros anjos
Rafael D-us cura
Uriel em D-us existe a luz
Miguel companheiro de D-us
A ordem (não) altera o sujeito
O (não) alfabeto sim
Eu sou Emanuel nele é Ael

2.7. bem-aventurado os mansos

Atrás, a vila.
Luz vermelha, bar, ruelas, cais, igreja.
Escola? Oculta.
Adiante, universitas insolitus, caminho e horizonte.
Ao leste o mar. Oeste, serra. Orbis finite.
Eu centro: santuário enfeitado
de branco, róseo e azul-quase roxo.
No tronco-altar, pouca-vergonha: a-ama-a
Sem pontos.
Um coração e uma flecha.
Então, ela pousou suas mãos na minha cabeça.
Ungiu meus cabelos com afagos e lágrimas.
Perfumou de beijos minhas mãos .
Ainda a ouço: "que Uriel te acompanhe".
Ele, sentado na pedra, olhar firme, eterno silêncio.
É seguro. Direção.
Tremi ante meu destino.
Olhei pra trás. Hesitei.
Decidi, em frente. por ora, æl ficou.
Levando guri, assumi minha ventura.
Do saco tirei a minha viola.
Deixei o mar, costeei o mar,
avancei na terra.
E sendo frio,
Deus resolvera visitar a gente.
Emanuel, eu, partira.

2.6. bem-aventurado os misericordiosos

Anjo curador, Rafaela, é o meu preferido.
Descobri-me feiticeiro, encantado nas palavras.
Repousei no manacá a minha fala
e neles encontrei meus sonhos
em uma escrita com cinco letras antigas.
Iguais, diferente. Passado e futuro.
Gravadas, eternas.
Quatro "a", "a", "a","a" e um "m"
Sem pontos.
Somente princípio, infinito meio, nunca fim.
Iniciado em aleph, terminando em alfa.
Centro em mü. Universo divido em mil.
Tive relação com meu destino.
Curado, curo curando.
Pacificado, pacifico pacificando.
Alimentado, alimento alimentando.
Consolado,consolo consolando.
Saciado, sacio saciando.
E amando, levo meu amor, pois amado.
Se foi pra isso que eu vim, está aproximada a hora.

2.5. bem-aventurado os construtores da paz

Miguelangelo jamais entalhará o divino momento.
Tão humano movimento.
O lugar? centro do peito.
Campinho, canto esquerdo.
No alto, primeira estrela cintilar.
Abaixo, luzes aos poucos acesas.
No coração entrelaçado, fiz meu pedido.
Desejado desejo, quase violento.
Concupiscência e posse.
Gravar, eternizar o que rápido fugia.
Foi lindo o acordar do primeiro amor,
testemunhado apenas pelo manacá da serra.
Sim, amado amei amando.
Durmo quieto daquela noite.

2.4. bem-aventurado os famintos

Fiat lux. Eu vi.
Foi-se a aurora.
Derramado de brilhos e cores,
o manacá da serra era soberbo.
Arroubo, êxtase no espírito.
Confirmação.
Futuro e passado juntos. Presente.
Eu ai, sem estar.
Vida densa, extensa.
Em meus olhos, putas puras, anjos, bêbados, aprendizes, beatos, malandros, carrinheiras e cozinheiros, crianças, velhos, santas pecadoras e mães.
Fornos, holocausto. Shemá Israel.
Um átimo, uma toda vida.
Foi com meu pai, Azaquiel, que descobri o momento do florescer.
Nada mais viril, fragilidade.
Meigas, ásperas; como a existência, o ser.
Eu me percebo rosa.
Atinadas no haver mais que espinhos.
Gratuitas, oferecidas.
Tão donas de si, são roubadas.
Úteros em botões.
Artemísias.
Eu me sinto lírio.
Vestido de Salomão, sedutor como Salomé.
Cheiroso, necessitado de cuidados, efêmero.
Escondidos, eternos ao desabrochar da primavera.
Falo em flor.
Destino a ser sêmen.
Dama da noite.
Em me apercebo margarida.
Tantas, simples, comuns... aperfumadas.
Tão iguais, diversas, enganosas.
Sempre familiar.
Sofridas as margaridas.
Alegres, sonhos, devaneios, vassouras e marmitas.
Presas no turricado chão, estrada.
Muito dadas. Gulosas.
Vulva florida.
Marias-sem-vergonha.
Faço-me cravo.
Despudorados e orgulhosos.
Prontos para o casório.
Copo de leite.
Sou jasmim, magnólia, gira-sol.
Macho como uma orquídea.
Só, torno-me flor; muitas, sou jardim.
Sou æl, Emanuel.
Conheci Deus.
Deu-se a travessia.
Fiat terraum!

2.3. bem-aventurado os que choram

Eu e minhas amigas voltávamos da escola.
Conversávamos amenidades.
Ao passar pelo campinho, encontramos Azazel e sua turma.
Tentei apressar o passo.
Só ouvi: "æl, boiola".
Não reagi. Apenas ressenti.
Distante, Anael, graciosa, afirmou: "liga, não. Ele nunca foi amado".
À noite, sozinho, no escuro, querendo dormir,
lágrimas brotavam de meus olhos, silenciosas.
Por quê? Não sei por quem...
Hoje eu sei, era o princípio da reconciliação.

2.2. bem-aventurado os sedento de justiça

Amanheci, aquele dia, muito vivaz.
Eu tinha entre 9 e 10 anos de idade.
Fui jogar bola.
Numa entrada mais dura, Azazel me acertou.
Eu não gostava muito dele.
Era um moleque atrevido.
Sardento, cabelo vermelho.
Olhos castanhos esverdeados, moreno.
Em outra jogada, satisfeito, diblei ele.
Ouvi: "ô seu filho da puta."
Rápidos, como um trovão, nos atracamos.
Impotente, eu tentava acertar o seu olho.
Quanto mais tentava, menos conseguia.
Rolávamos na nudez do campo.
Eu ficava acima dele ou ele, de mim.
Senti uma sensação, que não sabia ao certo, percorrer o meu corpo.
Era diferente da raiva.
Tive um pouco de medo.
Lembro apenas, que depois de um tempo, Gabriel me puxou.
Debaixo, ouvi um grito:
"æl, vem almoçar".
Na mesa, minha mãe diz:
"Depois de comer, levarás o almoço pro teu pai . Vá direto pra escola. Não fiques fazendo arte por ai. Daqui a um mês é tua primeira comunhão. Tu tens que te comportar melhor".
Eu respondo, lacônico: "tá bom".

2.1. bem-aventurado os pobres

Recordo um dia feliz.
Era natal.
Acordei cedo.
Estava com o meu tênis e roupas novas.
Eu tinha sido batizado naqueles dias.
Meus padrinhos compraram as roupas pra mim.
Uma camisa branca de botões e uma calça preta, bem bonitas.
Eu era orgulhoso.
Passei na casa de meu amigo Gabriel.
Ele estava só. A mãe dele tinha saído pra trabalhar no dia anterior.
Diziam que ela ganhava a vida fácil, mas tinha que sair todo o dia.
Às vezes, voltava tarde ou na manhã seguinte.
Eu não conhecia.
Subimos a ladeira e chegamos no campo de futebol.
O campinho, naquele dia, era só nosso.
Empinamos a minha pipa toda a manhã .
Eu era feliz.
Almoçamos churrasco no quintal de casa.
Comemos, além de arroz, macarrão, maionese e frango assado.
Os guris tomaram refrigerante e os adultos, cerveja.
Teve até sobremesa, pudim e torta de banana.
Eu fiquei saciado.
À tarde, eu e o Gabriel, fomos no shopping que ficava perto.
Fomos procurar o Papai Noel.
Tinha uma árvore de natal bem grande, com muitas luzes.
E também uns bichinhos e uns barracos. Era lindo.
O Papai Noel não estava lá.
Tinha ido dar presentes às outras crianças.
Na escolinha eu lhe havia mandado o desenho duma bicicleta.
Ele me deu uma pipa e um tênis.
Meu pai disse que o Papai Noel não podia dar tudo.
O Gabriel nada ganhara, ainda.
Voltamos até a casa dele. O Papai Noel não havia chegado.
Eu acreditei.
A mãe do Gabriel estava dormindo, não podíamos fazer barulho.
Fomos para a rua e, com outras crianças, brincamos de pegar e esconde-esconde.
De noite, minha mãe reclamou que minha roupa estava suja.
Lavei-me.
Eu dormi tranquilo.

1. anúncio e nascimento

Minha origem e destino carregam o riso na dor.
Fui concebido sem querer, no não querer.
Virgindade, brutalidade, espada em riste, corpo violentado, submissão.
Ela, minha mãe, uma escrava livre e ele, soldado invasor.
No silêncio, com cuidado e zelo, fui sendo gestado, inovador.
Nas ruas, escondido eu, ela ia e vinha, cheia de medo,
levando uma cruz dourada,
puxando o vestido, disfarçando sua esperança e mais ainda o seu temor.
Anunciado eu. Ela disse: "Não foi ele quem fez, sou eu que quero".
Botou um vestido bonito, perfumou-se, brincos nas orelhas,
saiu de casa e me levou consigo, cheia de graça.
Meu pai, coitado. Bonito, jovem, um jardineiro.
Acreditante em sonhos, se perguntava.
Não sabia ao certo o que ela fizera.
No ser calado e de olhar inquieto, revelava o seu jeito acolhedor.
Um homem justo, diria eu.
Ironia ou sina, nascido, deram-me o nome de Emanuel.
No cais, na esquina do bordel, naquela noite fria,
seis meses antes do que devia, dia do batista,
não sei porque, os marujos e as prostitutas
fizeram uma fogueira e soltaram um balão.
Levantaram pros céus a imagem do menino, nosso Senhor.
Assim, sem querer e no querer,
mesmo que só por um instante,
conseguiram, entre um trago e outro, alumiar a ruela e aquentar o frio.
E eu quietinho lá, no quarto-sala, enrolado em trapos,
presságio da paz ternura aos homens e às mulheres, embrutecidos.
E dizia, mesmo calado, que, apesar de tudo, Deus alegra o mundo.

não é preciso...


amor e renúncia

Mais do que me posso permitir, amar-te é mais do que a morte.
Renunciar-te é fruto da razão.
Cruel é a paixão.
Então, sendo esta a minha sina, como posso dizer:
"Te esqueci. Por ti, não mais sofro".
Longe de mim este desatino...
Ondas revoltas, abismos profundos, correntezas intensas...
Tudo venço por causa do meu perene amor.
Gratuidade de Deus é o amor. Não tem preço.
E se quizerem me dar todas as riquezas
em troca do meu eterno bem querer a ti,
sem lastimar ou duvidar, digo não!

Ou, outra forma de dizer que te amo:

Se amar é esquecer, continuo te amando, sem esquecer-te.
Se amar é te deixar livre. És livre. Mas eu estou para sempre preso a ti.
Se amar é renúnciar, renuncio-te. Porém, te perder, jamais!

Morlupo (Itália), 10/10/08

Simples

É assim mesmo.
Não duvide ou duvide...
Guerra é guerra,
união é união e
amor é amor.
Tão simples, tão complexo.
E, ainda que digam o contário,
viver vale a pena.
Por viver, nada mais.
Infelicidade e felicidade, duvide ou não,
atraem-se a si mesmas.