palavrear

Discursar Deus é pouco custoso.
Eu mesmo me arrisco
duas ou três vezes por semanas.
Vezes mais, vezes menos.
Pretencioso, ousei:
"este é o projeto sagrado,
sua vontade é esta,
não é o que ele pensa!
Isto ele não quer,
aquele é rejeitado,
assim é benquisto".
Porta-voz de mim próprio.
Êxtase em toar som estridor.
Desconstrução em convencido teologar.
Tagarelar Deus é muitíssimo fácil...
Mistério é sentir quem é, sem jamais ser.
As crianças, os poetas e os artistas
são os místicos mais dignos de fé.
Desarmados em experienciarem o divino-humano.
Mas, não envergonho-me da teologia.
Ela é chave para eu porteiro.
Não é a porta, nem é o átrio.
Muito menos o jardim que dá pra rua.
Se imaginada única que compete abrir,
ameaça é de acostumar-se tranca.
Nada afirmo, muito menos digo.
Mais uma vez só jogo palavras...

tragédia ou comédia?

No palco da vida sou autor e ator
e, maioria das vezes, igualmente platéia.
Morta é a vida no apenas representar papéis,
urge então o atuar no existir.
No desenvolver das cenas, sem roteiros,
não há ensaio para os gestos ou palavras.
Só há os riscos de ser vivente
em enfrentar o palco-picadeiro
no imprevisível dos aplausos ou vaias.
Difícil, mesmo, é deixar o palco,
abandonar a cena,
permitir outros scripts,
talvez mais significativos que os meus.

enigma

Alguma pessoa me disse:
"Padre, não te entendo".
Pensei, pensei e afirmei:
"Eu também não".

confissão

- Adão, tudo bem?
- Legal aqui né? Muito legal...
- Em que posso te ajudar?

- Diz, o que devo fazer pra me tornar padre?
- Além da vocação, é necessário estudar. Depois do ensino médio, filosofia e teologia.
- ... eu parei na oitava série. Devo começar então? Vai levar muito tempo.
- É, não pode ter pressa.
- ufa, que alívio...

- Quero saber uma coisa.
- Sim?
- Eu também sou do sul. Somos em oito irmãos: uma é Sarion, outra Jezebel, tem ainda o Israel e o Ezequiel. Paulo de Tarso, Míriam e Davi.
- Tua tradição é evangélica?
- Minha mãe é crente. Mas não quero saber deles não. Prá lá não volto.
- ... certo...

- Minha vida é uma desgraceira só. Meu sobrenome é italiano. Sabia que minha mãe é de lá? Possuo dupla cidadania. Morei na Itália até os doze anos.
- Aonde?
- Perto de uma igreja bem grande. Quando voltei pro Brasil, meu pai me usou. Já lhe falei isso na semana passada, né?
- Não...
- Por isso, não quero voltar prá minha gente. Tudo que eu queria era arrumar minha vida. Não posso mais ficar no albergue.
- Por quê?
- Eles roubam tudo de mim... Segunda, consegui vender 20 reais. Tinha assim de neguinho querendo emprestado... Consegue um lugar aqui perto. Sabe, eu trabalho no centro. Mas já fui, com o meu carrinho, até Santana.
- Longe, heim?

- Já morei em Florianópolis. Embaixo da ponte Hercílio Luz. Os americanos queriam comprá-la por 120 milhões de dólares.
- Não é muito dinheiro?
- Nada. Eles tem muita grana. Porém, eles não iam levar. Só ia ser patrimônio deles . Colocavam a bandeira lá no alto. Imagina só se iam deixar...
- É... ia ser difícil.

- Pois é, arruma um local pra mim... Mas, eu não posso pagar.
- ...
- O que eu faço?
- O que tu queres fazer?
- Voltar pra minha cidade. Já disse, no albergue está muito ruim. Digo o que penso. Tem muita gente de olho grande e outros que não me tratam bem. Se eu for expulso, não vou sozinho. O que eu faço?
-Quem sabe arranjamos um outro lugar.
- Vou pagar com quê? Me ajuda, o que eu faço?
- ... sinceramente, não sei...

- Padre, posso voltar semana que vem pra ver se o senhor arranjou algo pra mim?
-Pode. Venha sempre que quiseres.
- Então, tá.

bodas

Na noite sonhei.
Vi um espelho
e nele refletido um casulo.
Lindo e enfeitado, sendo transportado.
Eu, em embalos suaves, dormindo sereno.
Caminhos amenos, serenos, organizados.
Jardim bem cuidado: gramas, ipês, ciprestes e jasmins.
Pássaros em canto.
Anjos e monumentos,
alguns simples, outros suntuosos.
Bronze, mármore de Carrara
e mesmo alguns detalhes em ouro.
Era um dia de sol.
Antes do passeio,
unira-me àquela que sempre estivera,
ladina e matreira, ante a mim.
Ela me tocou,
me acolheu nos seus braços,
acarinhou meus cabelos
e beijamo-nos ardentes.
Tornou-se, assim, minha companheira.
Desposei a morte.

silêncio

Mesmo no muito fazer,
e mais ainda no muito falar,
dentro de mim ora se faz silêncio.
Silêncio passado: por quê? como? quem?
Silêncio presente: o quê? para quem? de que forma?
Silêncio futuro: até quando? é possível? será el@?
Brotado numa única certeza: agora sou assim!
Novidade foi acrescentada na minha vida: boa ou má notícia,
-o que importa?!- faz parte de mim, tornou-se eu.
E no silêncio que grita dentro de mim, sou gestado e me gesto
e histórias indesejadas se fazem única interrogação.
E assim vou me descortinando, na noite insone,
no meu mistério, na minha busca, no medo de mim próprio.
E quando me abandono na inquietação silenciosa da noite,
descubro a beleza inexorável de uma estrela que brilha
- talvez uma lágrima ou mesmo um astro -
indicando o norte, iluminando o caminho.
Fazendo-se passado, presente e futuro
e plenificando o vazio do existir por existir.

sétimo e último dito: entendimento

bendito ou maldito
tudo é leitura.
Quem tiver olhos, ouça.

sexto dito: passa tempo!

não faço poesias nem escrevo prosas
só jogo, palavras.
Sem quadro, sou inominável.

quinto dito: pontos de vista

tevê diz: vista-o, pau!
padre diz: abstenha-se, arda...
eu digo: ame-o, há consequências.

quarto ditos: pontuação da negação

sério não confie em mim não sou sério
... ou variante do mesmo dizer:
sério não me leve a sério não sou sério

terceiro dito: profissão de fé

Se casamento é bom,
padre casava.
Hoje, eu casei.

segundo dito: custo de vida

As dores mais profundas
são as que curam.
Sofrer é preço pagado por viver.

primeiro dito: não é novela

Todo e qualquer casamento
tem um final infeliz.
Façam dias felizes.

7. prólogo: dies Domine

1. Celebre o manacá da serra.
2. A viola entõe sons para canções.
3. Jovens e velhos dancem em praças públicas.
4. Eternamente se conte e reconte:
5. nem morte e nem alguém pode impedir
6. o amor que ousou dizer seu nome:
7. azazel-ama-æl.

Emanuel, Deus conosco.