toscanejar

noite fria qualquer de abril, fui concebido.
não sei se meu pai conheceu minha mãe
ou se minha mãe conheceu meu pai.
nem mesmo sei se foi amor ou usança.

só sei que assim passei a existir,
Deus até caprichou na figura
desenhou-me com traços assimétricos
bom de ver. originais e belos. estéticos.

o problema é que era frio, muito frio.
bem na metade do trabalho, ele cochilou.
e, meio acordado e meio dormindo, cabeceando,
ele se pôs a obrar o meu interior.

errou de cheio. bola na trave.
nem dentro, nem fora. não foi gol.
não escolheu a moral e os valores adequados,
criou-me fora do padrão, da normalidade.

numa manhã quente de janeiro, nasci.
outros tantos janeiros se passaram, mesmo primaveras,
eu crescendo robusto, alto, belo e formoso,
porém, maioria das vezes, não sabia pra que lado jogar.

foram-se tempos, enfrentei feras, rumei atalhos
rejeitei caminhos, feri, fui ferido, chorei. sorri.
e como Archimedes com sua lanterna,
vivi um eterno buscar não sei o quê ou quem.

em outra noite, a primeira do outono,
finalmente tornei-me flor e dei a luz a mim:
percebi e decidi: há alguém errado?
só pode ser o projetista, não eu!

Hannah karina, eta carinae

teu nome, em dueto,
memória antiga se compõe.
norteiam, estrelas, sul equatorial.

do passado bíblico,
como a mãe do Senhor,
és cheia de graça e compaixão.

da terra dos heróis míticos,
de helênicas mulheres,
revelas graça e encanto.

ora presente, ora ausente,
brilhas entre Centaurus, Vela, Puppis,
Pictor, Volans, Chamaeleon e Musca.

antes da espera

inverno, plantei roseira.
o broto anunciou, temporão,
os botões desabrocharam,
emanando perfume, o teu.

inundado em sol nosso jardim,
odiei o vento importuno,
mas era isso, vento. passou.
voltastes, enfim, primavera.

ausência

esta noite, na solidão de mim,
senti saudade dos teus defeitos,
tão essenciais agora,
eles, razão de infinitas guerras.

esta noite, mergulhei nas memórias,
vivi momentos teus junto aos meus ,
acalentei-me em tuas eternas palavras,
devorei o teu corpo, invasão.

esta noite, revivendo inesquecíveis batalhas,
senti o talho na carne da não despedida
e, como num filme lento e mudo,
tua falta tornou-se muito mais do que carência.

desbaste

Vesti-me de jardineiro,
afiei a tesoura,
preparei-me para a poda.
Imaginei formas,
projetei desenhos,
iniciei o labor.
Ajuntei os ramos,
corte rápido,
ai!, surpresa em vermelho.
Artista de mim,
em gesto (in)esperado,
dei-me nova forma.

tempo adverso

alma atormentada,
tormenta na alma.
demora da bonança,
porto mais distante.

mesmo assim vale a pena

Ignoro: pouco sei.
O existir é insuficiente,
o ter não preenche o vazio,
o saber é limitado.
Não domino meu destino,
minha história não me pertence,
quanto mais subo, mais subida.
Não posso salvar o mundo,
escolho o errado,
desconheço o melhor.
A dor é inevitável,
perder é o preço de viver,
quem amo me decepciona.
Sou covarde,
abandonei meus amigos,
trai meus amores.
Há muito que aprender,
pouco tempo me resta,
a finitude me envolve.
Muito sei: ignoro.

a vida é bela

médico curador,
sou chamado a aplicar,
no intuir e animar,
o bálsamo curador.

a uns, ouvidos atento
a outros, gestos de carinho
a terceiros, magia em som.

a todos uma poção
do meu tempo e do meu ser.
medida certa, porção.

médico curador,
atingido, mal sem cura,
carrego, em segredo,
ferida aberta, sangrador.

divino augusto

teu olhar, teu olhar, teu olhar
como é lindo teu olhar.
olhos atapetados em negros,
neles viajo, chão em diamantes.

acesos, sorriem luminados,
pérolas raras, escuros,
noite em estrelas, teu olhar,
eu, pro fundo, mergulho.

olhar encantado, encanta
olhar fascinado, me feitiça.
olhos em passeio de menino,
irriquietos, brincam de lá pra cá.

imperador, bruxo, feiticeiro.
ai. como é lindo teu negro olhar.
teu olhar, teu olhar, teu olhar.

desencontro

adão procura eva.
eva procura adão.
tão próximos.
não se deixam conhecer.

teseu

caminhei em inúmeros labirintos
escuros e úmidos
a procura de arrimo e aconchego

procurei o outro,
mas, verdade, buscava
a mim mesmo.

toquei e fui tocado.
em olhares sedentos,
dexei-me envolver.

instantes de satisfação,
momentos de êxtase,
vazio de sentidos.

perdido e só.
o efêmero, ainda que breve,
eternizou-me em seus braços.

não, sei, não

não sei
não quero saber
tenho raiva de quem sabe
sei mais do que queria saber
verdade dói

odisseu não sou ulisses

Todos os dias, pela manhã, ao levantar
Águas lavam meus sonhos
Olho-me no espelho
Vejo meu outro eu: guerreiro

Lâminas cortam meus espinhos
Unjo-me com perfumes
Visto-me em armadura
Eu enfrento o destino

Todos os dia, pela noite, ao deitar
Águas lavam meu corpo
Olho-me no espelho
Vejo meu outro eu: fragilidade

Mãos massageiam meus espinhos
Unjo-me com óleos
Visto-me em pele
O destino me enfrenta

apologia ao mandriar

Urge tanger em flautas.
Encantar bem as crianças
com pandeiro, dança e alegria.
Contar as crianças no bem
em roda, boneca e estripulia.
Urgente cantar as bem crianças
com teatros, rezas e sinfonias.
Encantar bem as crianças
com pássaros, flores e geografia.
Contar as crianças no bem
em letra, número, magia.
Urgente cantar as bem crianças
com balanços, colos e utopias.
Bem banidas -bandidas -
drogas, violências e mortes;
antes tarde que tardia.
É urgente nos encantar,
toar bem, bem, bem.

emudecer

Tagarelar, tagarelar, tagarelar...
cultuamos ouvir os nossos ruídos.
Sons estridentes, címbalos desafinados.
Urge acolhermos o mistério
do outro e das coisas que se revelam
em presença e vozes caladas,
muitas vezes amortecidas
pelos estrondos da nossa onisciência.
Diante do mysterium
só nos resta: silêncio e adoração.
Dê lugar para o soar,
cesse o tagarelar.