sem palavras

A cicatriz da alma, testemunha a travessia.
Naquela noite, era o momento de dar-se o encontro.
Ao te ver, algo gritou em mim.
Quando me dei, estava sentado frente a ti e lancei-me no jogo da sedução.
Planejava momentos de trocas, sem envolvimento.
Ledo engano.
Vieram as viagens, as férias, o natal e as noites na praia.
"Amizade apenas", afirmava eu aos outros.
Envolvido, adiava aquelas três palavras.
Mas o tempo exige a paga dos apaixonados.
Com ele vieram as cobranças.
A princípio em gestos; depois em dizeres.
E eu sempre com inúmeras justificativas:
"É necessário manter nossa independência.
Somos homens".
Chegou então àquela outra noite.
Deixei-te em frente à tua casa, na calçada.
Pelo retrovisor, eu via, entre lágrimas,
tua imagem cada vez mais distante.
Eu sabia... Não era o carro que se afastava.
No outro dia, me levantei bem cedo.
Bati em tua porta e, em silêncio, saímos.
Levei-te ao aeroporto.
Longe de ti, finalmente elas foram ditas: eu te amo.
Tarde, eu me conheci.

toque de prazer

olhei minha imagem no espelho.
na palma da mão distribuí gel.
com dois dedos, em suaves massagens,
transformei-o em espuma na face.
peguei a lâmina e deslizei no rosto.
suaves movimentos de ir e vir.
amaciei a pele, senti a suave textura.
espalhei loção, aspirei perfume.
cheiro bom. feliz, satisfeito.
eu me senti tão viril e tão meigo
na rotina de barbear-me naquela manhã.

she'óhl

ousei ingressar em lugares onde eu nunca deveria ir,
universo sombrio de infernais abismos,
onde o incerto e o tenebroso jazem vivos,
arrepio de morte em cada passo a seguir.

ousei penetrar lugares terríveis, asquerosos,
terra incógnita onde fantasmas, bruxas e vampiros
afrontam, covardes, os incautos ventureiros,
atacando-os de modo traiçoeiro, impiedosos.

ousei mergulhar, medroso e apavorado,
em lugares profundos de meu devir,
local insano dos arquétipos antigos, secretos,
aonde eu, cônscio, jamais me permitiria ir.

benedicta tu in milieribus

maria, mater dei,
ora pro nobis pecatoribus
nunc et in hora mortis nostrae.

valhei-me, ó virgem maria,
e, ao iniciar a necessária travessia,
guardai-me e protejei-me, vida minha.

e na angústia, envolvido no medo,
incapaz de atinar o hoje ou amanhã,
clamo teu certeiro amparo,
aguerrida esperança dos fracos.

e no instante derradeiro,
quando eu, só eu e ninguém mais,
quando o retroceder não mais existir,
defendei-me, mãe compadecida dos mortais.

transitivo ou intransitivo?

(todavia...)
eu amo
tu amaste
ele amava
nós amáramos
vós amareis
eles amariam

(se...)
elas amem
vós amásseis
nós amarmos
ela amar
tu amar
eu amar

(pois...)
eu amando
tu amando
ela amando
nós amando
vós amando
elas amando

(assim...)
eles amados
vós amados
nós amados
ele amado
tu amado
eu amado