desejoso

desejos são perigosos,
derrubam muros,
estabelecem pontes,
geram filhos,
assassinam,
criam jardins,
roubam beijos.
incontroláveis,
chucros.
necessitoso em domá-los,
vivo de conta.
acordo. me ocupo. durmo.

tão incerto

frágil como todas as crianças,
seu choro interrompe o curso das estrelas,
enquanto o perfume da dama da noite inebria.
tudo é paz,  é incerteza.

terá comida? agasalho? escola?
superará as agruras do inverno próximo?
são as poucas de inúmeras perguntas,
que a mãe engana no embalar o seu neném.

outras virão, é certeza.
destino severo, extrema pobreza.

e na espera do novo dia,
ouve-se, bem longe, o balido da ovelhas
e o grito rouco do pastor da noite,
parecem anjos, arautos de boa notícia.

feito de vaga-lumes, cocho e palha,
belo, mas sem aparência ou neve,
aquele presépio, o único e original,
anuncia algo novo, inaudito.

e assim deus habitou o mundo.

é de paz que eu vou falar

no meio de tantas incertezas,
além das traições e desesperos,
meu coração sonha aprender de novo.

aprender a confiar nas pessoas,
aprender a brincar por bincar,
aprender a sonhar que tudo é possível.

meu deus,
és bom e infinitamente amoroso,
lento em punir, pronto a perdoar,
ensinai-me o segredo de ser homem.

não mais do que isto te peço,
que eu saiba ser divino, amando
e saiba ser humano, acolhendo.

que eu derrame lágrimas,encantado,
diante das pequenas coisas:
o brilho das estrelas,
o perfume das flores,
o barulho do mar.

que eu não me torne insensível
ao abandono de homens e mulheres
largados a própria sorte
embaixo de viadutos
e ao longo das avenidas
desta grande metrópole.

que eu não me conforme com o inconformável,
que a cruel omissão de socorro,
a covardia e o falso interesse,
não recebam os louros da vitória final.
dai-me sempre o poder transformador da ira,
de indgnar-me diante da injustiça. Amém.