de profundis

da longe senti um arrepiante no corpo,
cada centímetro de pele enriçado
e a parte mais escondida, arrugada.
uivo terrível, ululante,
- arre égua! -
apartada a espinha no meio.

mesmo tremoso, embebido,
encarei o vulto medonho e escuro.
pêlos espinhentos, éctimas em crostas.
sexta-feira maior, a da paixão,
noite d'almas desencarnadas, vagantes.

mula sem cabeça, lobisomem,
coisa ruim ou o capeta?
não tive tempo pra decretar.
espiei bem fundo no sanguinolento zolho,
lobrigando o amaldiçoado no espelho.
certeza certa - era eu mesmo! - não logro.

ser ou não ser?

rosa choque, pra chocar.
azul macho, pra machucar.
ate o super homem
pode nao ser homem,
e a mulher maravilha
pode nao ser maravilha.
e tudo pode ser
e nada pode ser.
por minha culpa,
minha culpa,
minha maxima culpa!
errar eh divino.

nao tenho o que dizer, escrevo. senao eu vou enlouquecer. nao procure, nao ha sentido. so dedos no teclado. nada mais.

palavras.
mesmo não ditas,
mesmo não codificadas,
salvam a alma.

sou verbo,
sou pronome,
sou adjetivo,
sou prefixo,
e, também, sufixo.

fui desejo,
fui memória,
fui sussurro,
fui estrídulo.

agora sou.
melhor, fui.
promessa da mente,
serei?

ensaiadas.
ditas.
desenhadas.
palavras.

abandonar

dói-me ter que esquecer o amanhã.
tantos sonhos,
tantas carícias,
tantos beijos,
tantas brigas,
tantos dias,
tantas noites.
tantos. tantas.
possíveis.
promessas.
agora é descuidar de me alembrar.

transcedência

se o sol ousar despontar no oriente,
sentirei o destino, hercúleo, a chamar-me;
montanhas.
não nasci pras planícies, nem pros vales.
meus olhos sedentos do infinito,
paisagem incontida, além.
lá onde me sinto finitude,
abarco em meus olhos
o sem fim horizontes.
contempla minha alma,
extasia-se do etéreo,
embriague-se do incontido!